Cipriano de Cartago e a Unidade Eclesial: sua atualidade temática

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Cipriano de Cartago e a Unidade Eclesial: sua atualidade temática

Mensagem  "Ekklésia Christiana" em Dom Set 11, 2011 2:27 pm


Saudações cristãs,

Amados...






Considerando-se o atual contexto e seus desdobramentos, pareceu-me oportuno propor-lhes a leitura e/ou apreciação de um dos mais célebres ensaios patrísticos acerca da UNIDADE ECLESIAL e seu penhor. Trata-se da obra “De Ecclesiae Unitate” atribuída a Cipriano (200-258 E.C.), Presbítero-epíscopo de Cartago/África (assim elevado em 249 E.C.). Situando-se entre finais do período propriamente apostólico e o advento da “Grande Apostasia Romana” (ou “Igreja Constantiniana”), o referido estágio é caracterizado pela História Eclesiástica e secular com transicional ou intersticial. Já sob a modalidade organizacional-administrativa Episcopal Monárquica (desde meados de 180 E.C.), vê-se envolto em meio a diversas frentes oposicionistas, dentre as quais os Novacianos. Segue:




“De Ecclesiae Unitate”

(Da Unidade da Igreja)

Thascius Caecilius Cyprianus




Parte I



I - Vigilância: o oponente e seus disfarces


1. "Vós sois o sal da terra" (Mateus 5:3), diz o Senhor, e nos recomenda ainda que sejamos simples pela inocência e prudentes na simplicidade [Mateus 10]. Nada, pois é mais relevante para nós, irmãos diletíssimos, quanto vigiar com todo o cuidado para descobrir logo e, ao mesmo tempo, compreender e evitar as ciladas do astuto oponente. Sem isso, embora sejamos revestidos de Cristo [Romanos 13:14; Gálatas 3:27], que é a Sabedoria de Deus, o Pai [I Corintios 1], nos mostraríamos menos sábios na defesa da salvação.
2. De fato, não devemos temer somente a perseguição e os diversos ataques que abertamente se desencadeiam para arruinar e abater os servos de Deus. Quando o perigo é manifesto, a cautela é mais fácil. O nosso espírito está mais pronto para lutar contra um adversário aberto e declarado. É mais necessário ter medo e guardar-nos do inimigo que penetra às escondidas, e se vai insinuando oculta e tortuosamente com falsas imagens de paz. Bem lhe convém o nome de serpente! Essa foi sempre a sua astúcia, esse foi sempre o tenebroso e pérfido engano com que tenta seduzir o homem.
3. Já no começo do mundo mentiu e enganou as crédulas e ingênuas almas (dos nossos primeiros pais), acariciando-as com palavras falazes [Gênesis 3] . Igualmente ousou tentar a Cristo, nosso Senhor, e se aproximou dele insinuando-se, disfarçando-se, mentindo. Foi, contudo desmascarado e repelido. Desta vez, derrotado, porque reconhecido e prontamente descoberto [Mateus 4].


II – A excelência dos decretos de Cristo


1. Sirvam-nos estes exemplos. Evitemos o caminho do homem velho, para não cair no laço da morte. Sigamos as pisadas de Cristo o vencedor, para que, usando cautela diante do perigo, alcancemos a verdadeira imortalidade.
2. Mas, como poderíamos chegar à imortalidade, sem observar aos mandamentos de Cristo? São eles os únicos meios para a morte combater e vencer. Ele nos avisa: "Se queres chegar à vida, observa os mandamentos" (Mateus 19:17), e, de novo: "Se fizerdes o que vos mando, já não vos chamarei servos, mas amigos" (João 15:15).
3. Esses são os que ele diz serem fortes e firmes. Esses têm fundamento sólido na pedra, e gozam de inabalável resistência contra todas as tempestades e rajadas do (presente) século. "Quem ouve as minhas palavras - diz ele - e as cumpre é semelhante ao homem sábio que construiu a sua casa sobre a pedra. Desceu a chuva, desabaram as correntes, sopraram os ventos, batendo contra aquela casa, e ela não caiu porque fora fundada na pedra" (Mateus 7:25).
4. Devemos, pois, atentar às suas palavras, aprender e praticar o que ensinou e executou. Como poderia asseverar que acredita em Cristo aquele que não cumpre o que Cristo decretou? E como conseguirá o galardão da fé aquele que a fé recusa no que (nela) foi ordenado? Fatalmente irá vacilando, à ventura, e, arrastado pelo espírito do engodo, será varrido como o pó agitado pelo vento.
5. Nunca poderão conduzir à salvação os passos daquele que não adere à verdade da via única - a que salva.


III – Satanás é o autor e senhor dos cismas


1. Devemos, pois, guardar-nos, irmãos caríssimos, não só dos males que aparecem claramente como tais, mas também, como já disse, daqueles que nos aliciam pelas sutilezas da astúcia e da fraude.
2. Pois bem, vede agora a que ponto chega a astúcia e a sutileza do inimigo. Veio Cristo ao mundo. Veio a luz para os povos e resplandeceu para a salvação dos homens [Lucas 2]. Com isto ficou descoberto e derrotado o antigo opositor. Os surdos abrem os ouvidos às graças espirituais, os cegos abrem os olhos a Deus, os enfermos ficam são ao ganhar a saúde eterna, os coxos correm à “Ekklésia”, os mudos soltam as suas línguas na oração [Mateus 11:5; Lucas 7:22]. Aumenta dia a dia o povo fiel, abandonam-se os velhos ídolos, tornam-se desertos os seus templos.
3. Então, o que faz o malévolo? Cria nova fraude para o engano dos incautos sob o título próprio de cristão. Introduz as heresias e os cismas para derribar a fé, para contaminar a verdade e dilacerar a unidade. Assim, não podendo mais segurar os seus na cegueira da superstição de outrora, os rodeia, os conduz ao erro por novos caminhos. Rouba à “Ekklésia” os homens e, fazendo-lhes acreditar que alcançaram a luz e se subtraíram à noite do século, envolve-os ainda mais em trevas: não observam a lei do Evangelho de Cristo e se dizem cristãos, andam na escuridão e pensam que possuem a luz, nisto são iludidos e lisonjeados pelo adversário, que, como diz o Apóstolo, "se transfigura em anjo de luz" (II Cor.11:14).
4. Camufla seus serviçais em ministros de justiça, ensina-lhes a dar à noite o nome de dia, à perdição o nome de salvação, ensina-lhes a propalar o desespero e a perfídia sob o rótulo da esperança e da fé, a apregoar o Anticristo com o nome de Cristo. Mestres na arte da mentira, diluem com as suas sutilezas toda a verdade.
5. Isto acontece, irmãos caríssimos, porque não se bebe à fonte mesma da verdade, não se busca aquele que é a Cabeça, nem se observam os decretos do Mestre celestial.


IV – A Tradição Apostólica e seu Depósito


1. Quem atenta a estas admoestações não necessita de extenso estudo, nem de muitas demonstrações. A prova da nossa fé é fácil e compendiosa.
2. Assim fala o Senhor a Pedro: "Eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha “Ekklésia” e as portas dos infernos não a vencerão. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus e tudo o que ligares na terra será ligado também nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado também nos céus" (Mateus 16,18-19).
3. Sobre um só edificou a sua “Ekklésia”. Embora, depois da sua ressurreição, tenha comunicado igual poder a todos os Apóstolos, dizendo: "Como o Pai me enviou, eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo, a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados, a quem os retiverdes ser-lhe-ão retidos" (João 20, 21-23), todavia, para tornar manifesta sua unidade, dispôs com a autoridade sua que a origem da unidade procedesse de um só.
4. É verdade que os demais Apóstolos eram o mesmo que Pedro, tendo recebido igual participação em honra e poder, mas a primeira urdidura inicia-se pela unidade a fim de que a "Ekklésia" de Cristo aparecesse uma somente.
5. O Espírito Santo, falando na pessoa do Senhor, designa esta Igreja única quando diz nos Cântico dos Cânticos: "Uma só é a minha pomba, a minha perfeita, única filha da sua mãe e sem igual para a sua progenitora" (Cântico dos Cânticos 6:9).
6. Aquele que não preserva esta unidade poderá pensar que ainda retém a fé? Aquele que resiste e opõe-se à “Ekklésia” poderá confiar que ainda se encontra na “Ekklésia”?
7. Paulo o apóstolo inculca semelhante opinião e evidencia o sacramento da unidade, dizendo: "Um só corpo e um só espírito, uma é a esperança da vossa vocação, um Senhor, uma fé, um Batismo, um só Deus" (Efésios 4,4-5).
8. E, após a ressurreição, diz ao mesmo (Pedro) : "Apascenta as minhas ovelhas" (João 21:17). Sobre ele (só) edifica a “Ekklésia” e lhe ordena que apascente as suas ovelhas. Embora comunique a todo o colégio apostólico similar poder, todavia institui uma só cátedra, determinando assim a unidade e sua origem.
9. É verdade que os demais [Apóstolos] eram o mesmo que Pedro, a proeminência, porém, é conferido a Pedro para que visível fosse que há uma só “Ekklésia” e uma só cátedra. Todos apascentam, mas é anunciado um só rebanho, o qual por todos os Apóstolos deve ser em unânime harmonia, conduzido.
10. Aquele que não se atém a esta unidade, por Paulo também proclamada, poderá pensar que ainda retém a fé? Aquele que abdica da cátedra de Pedro, sobre o qual se fez a “Ekklésia” fundar, poderá confiar que ainda se encontra na “Ekklésia”?


V - A “Ekkésia" Universal e Una: muitos são os raios, uma a luz...


1. Esta unidade devemos preservar e com firmeza exigir, mormente nós, epíscopos - que na “Ekklésia” presidimos - para prova de que o episcopado também é um e indiviso. Ninguém engane os irmãos com mentiras, ninguém corrompa a pureza da fé com pérfidos desvios.
2. Uma só é a ordem episcopal e cada um de nós dela completamente participa. Mas a “Ekklésia” também é uma, embora, em seu fecundo crescimento, se vá dilatando numa multidão sempre maior.
3. Assim muitos são os raios do sol, mas uma só é a luz, muitos os ramos de uma árvore, mas um só é o tronco preso à sólida raiz. E quando de uma única nascente emanam diversos riachos, embora corram distintos e sejam muitos, graças ao copioso caudal que recebem, todavia permanecem coesos em sua fonte comum.
4. Se pudéssemos separar o raio do corpo do sol, na luz assim dividida já não haveria unidade. Quando se quebra um ramo da árvore, o ramo quebrado já não pode vicejar. Se separamos um regato da fonte, este secará.
5. Igualmente a “Ekklésia” do Senhor, resplandecente em luz, lança seus raios ao mundo inteiro, mas a sua luz, difundindo-se em toda a parte, continua sendo a mesma e, de modo nenhum, é abalada a unidade do Corpo.
6. Na sua exuberante fertilidade, estende os seus ramos sobre toda a terra, derrama as suas águas em vivas torrentes, mas uma só é a Cabeça, uma a fonte, uma a mãe, tão rica nos frutos da sua fecundidade. Do parto dela nascemos, é dela o leite que nos alimenta, dela o Espírito que nos vivifica.


VI – A “Ekklésia”: de Cristo a Esposa - Não pode ter a Deus por Pai, aquele que não tem a “Ekklésia” por mãe


1. A Esposa de Cristo não pode tornar-se adúltera, ela é incorruptível e casta [Cf Efésios 5, 24-31]. Conhece só uma casa, observa, com delicado pudor, a inviolabilidade de um só tálamo. É ela que nos reserva para Deus e torna partícipes do Reino os filhos que gerou.
2. Aquele que, afastando-se da ‘Ekklésia”, junta-se a uma adúltera, privado está dos bens prometidos à “Ekklésia”. Quem abandona a “Ekklésia”de Cristo não chegará aos prêmios de Cristo. Torna-se estranho, torna-se profano, torna-se adverso.
3. Não pode ter a Deus por Pai quem não tem a “Ekklésia” por mãe. Como ninguém se pôde salvar estando fora da arca (de Noé), assim ninguém virá a salvar-se estando fora da “Ekklésia”.
4. O Senhor nos alerta e diz: "Quem não está comigo está contra mim, quem comigo não recolhe, dissipa" (Mateus 12:30). Quem rompe a paz e a concórdia em Cristo labora contra Cristo. Quem efetua colheita alhures, fora da “Ekklésia”, esse dissipa a “Ekklésia” de Cristo.
5. Diz ainda o Senhor: "Eu e o Pai somos um" (João 10:30), e do Pai, do Filho e do Espírito Santo está escrito: "Estes três são um" (I João 5:7). Como poderá alguém pensar que esta unidade da “Ekklésia”, decorrente da própria firmeza da divina unidade, e tão conforme com este celeste mistério, pode ser rompida e sacrificada ao arbítrio de vontades opostas? Quem não observa esta unidade não observa a lei de Deus, não observa a fé do Pai e do Filho, não possui nem a vida, sequer a salvação.


VII - A inconsutil túnica de Cristo


1. Este sacramento da unidade, este vínculo de concórdia inviolada e sem rachadura, é figurado também pela túnica do Senhor Jesus Cristo. Como lemos no Evangelho, ela não foi dividida, nem, de modo algum, rasgada, mas sorteada. Isto quer dizer que quem toma a veste de Cristo e tem a dita de se revestir do próprio Cristo [Romanos 13:14; Gálatas 3:27], deve receber a sua túnica toda inteira e possuí-la intacta e sem ruptura.
2. Diz a divina Escritura: "Quanto à túnica, visto que, desde a parte superior, era feita de uma única tecedura, sem costura alguma, disseram: não a dividamos, mas lancemos-lhe a sorte para ver a quem toca" (João 19, 23-24). A unidade da túnica derivava da sua parte superior - em nosso caso, do céu e do Pai celeste. Aquele que a recebia e guardava não podia rasgá-la de modo nenhum, de fato ela era resistente e sólida por ser constituída de um modo inseparável.
3. Não pode possuir a veste de Cristo aquele que rasga e divide a “Ekklésia” de Cristo.
4. O contrário aconteceu à morte de Salomão, quando o seu reino e o povo deviam ser divididos. O profeta Aías, indo ao encontro do rei Jeroboão no campo, cortou o seu manto em doze partes, dizendo: "Toma para ti dez partes, porque assim diz o Senhor: eis que eu divido o reino da mão de Salomão, a ti darei dez cetros e dois ficarão para ele, por causa do meu servo Davi e de Jerusalém, a cidade eleita em que eu pus o meu nome" (I Reis 11, 30-36). Para separar as doze tribos de Israel, o profeta dividiu O seu manto
5. Mas o povo de Cristo não pode ser dividido, e por isso a sua túnica, que era um todo feito de uma só tecedura, não foi dividida por aqueles que a deviam possuir. Ficando uma só, bem firme na sua contextura, ela mostra a união e a concórdia do nosso povo, isto é, daqueles que são revestidos de Cristo. Pelo sacro símbolo de sua veste, tem proclamado ele a unidade da “Ekklésia”.


VIII – As figuras do Antigo Pacto: Raabe, o cordeiro pascal


1. Portanto quem será tão celerado e pérfido, tão louco pelo furor da discórdia, para pensar como possível ou até para ousar romper a unidade de Deus, a veste do Senhor, a “Ekklésia” de Cristo?
2. Ainda uma vez nos alerta ele no Evangelho dizendo: "E haverá um só rebanho e um só pastor" (João 10:16). E como se pode pensar que, num mesmo lugar, existam muitos apascentadores e muitos rebanhos?
3. O apóstolo Paulo, por sua vez, inculcando esta mesma unidade, suplica e exorta: "Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais as mesmas coisas e não se deem cismas entre vós. Sede unânimes no mesmo sentimento e no mesmo parecer" (I Cor 1:10) E de novo: "Sustentando-vos mutuamente no amor, esforçando-vos por conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz" (Efésios 4, 2-3).
4. Achas tu que alguém pode afastar-se da “Ekklésia”, forjar, a seu arbítrio, outras sedes e moradas distintas e ainda perseverar na vida? Ouve o que foi dito a Raabe, na qual fora prefigurada a “Ekklésia”: "Recolhe teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a tua família junto de ti, na tua casa, e qualquer um que ouse sair fora da porta da tua casa, será ele próprio culpado da sua perda" (Josué 2, 18-19).
5. Semelhantemente o Cerimonial da Páscoa, como lemos no Êxodo, exigia que o
cordeiro, morto como figura de Cristo, fosse comido numa só casa. Eis as palavras de Deus: "Seja comido numa só casa, não jogueis fora da casa carne alguma dele" (Êxodo 12:46). A carne de Cristo, o santo do Senhor, não pode ser jogado fora. Para os que nele creem, não há outra casa a não ser a “Ekklésia” (única).
6. O Espírito Santo anuncia e significa esta casa, esta morada da união dos corações, dizendo nos salmos: "Deus faz habitar na casa aqueles que são unânimes" (Salmos 67:7). Na “casa de Deus”, na “Ekklésia” de Cristo, os residentes fazem-se reger pela unidade, perseverando na simplicidade e concórdia.



Parte II



IX – A pomba: Sociabilidade e Concórdia


1. Por isto também o Espírito Santo desceu em forma de pomba [Mateus 3:16; Marcos 1:10], animal simples e alegre, sem amargura alguma de fel, incapaz de se enfurecer; não morde, não arranha com as unhas. Prefere as moradias dos homens e gosta de habitar numa mesma casa. Quando criam, as pombas cuidam dos filhotes juntamente, quando viajam, voam pertinho umas das outras. Passam o tempo em tranqüilos arrulhos, manifestam a concórdia e a paz beijando-se no rosto. Enfim, em todas as coisas seguem a lei da boa harmonia.
2. Esta é a simplicidade que deve reinar na “Ekklésia”, essa a caridade que devemos realizar: o amor fraternal imite as pombas, a mansidão e a brandura sejam iguais às dos cordeiros e das ovelhas.
3. Como podem estar no coração de um cristão a ferocidade dos lobos, a raiva dos cães, o veneno mortífero das serpentes ou a crueldade sanguinária das feras?
4. Devemos alegrar-nos quando os que têm esses sentimentos se separam da “Ekklésia”. Assim as pombas e as ovelhas de Cristo não serão contagiadas pela sua maldade e pelo seu veneno. Não podem conciliar-se e juntar-se amargura e doçura, trevas e luz, chuva e céu sereno, guerra e paz, esterilidade e fecundidade, secura e manancial, tempestade e bonança.
5. Não acreditem que os bons possam deixar a “Ekklésia”: não é o trigo que o vento carrega, o furacão não arranca as árvores que têm sólidas raízes. Ao contrário são as palhas vazias que a tormenta agita, são as árvores vacilantes que a força dos turbilhões abate. Contra esses o apóstolo São João manifesta a sua repulsa, dizendo: "Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, sem dúvida teriam ficado conosco" (I João 2:19).


X – Origem e essência das heresias


1. A origem de onde nasceram frequentemente e continuam nascendo as heresias é a seguinte: há mentes perversas e sem paz, que, discordando em sua perfídia, não podem suportar a unidade. O Senhor, por seu lado, respeita a liberdade do arbítrio humano, permite e tolera que isto aconteça, a fim de que o crisol da verdade purifique os nossos corações e as nossas mentes, e, na provação, resplandeça com luz inequívoca a integridade da fé.
2. O Espírito Santo nos previne, por meio do Apóstolo: "Convém que haja heresias para que entre vós se tornem manifestos os que resistem à prova" (I Corintios 11:19). Assim, aqui mesmo, antes do dia do juízo, são divididas as almas dos justos e dos perversos e as palhas são separadas do trigo.
3. Esses são os que, por própria iniciativa e sem chamamento divino, se põem a encabeçar temerárias facções. Contra toda a lei da ordenação, se constituem superiores e, sem que ninguém lhes dê o episcopado, se atribuem a si mesmos o nome de epíscopos. A eles faz alusão o Espírito Santo, no Salmo, falando dos que estão sentados em cátedras de pestilência, porque são peste infecciosa da fé. Mestres na arte de corromper a verdade, eles enganam com bocas de serpente, vomitando de suas línguas pestilentas peçonhas mortíferas. Os seus discursos brotam como chaga cancerosa, o trato com eles deixa no fundo de cada coração um veneno mortal.


XI – Ritos iniciáticos apóstatas


1. Contra esses homens brada o Senhor, para afastar ou retirar deles o seu povo desviado: "Não escuteis os sermões dos pseudoprofetas, porque vivem iludidos pelas alucinações do seu coração. Falam, mas não as palavras do Senhor. Aos que rejeitam a palavra de Deus dizem eles: tereis a paz, vós e todos os que andam segundo as próprias vontades. Não virá mal algum, ainda sobre aqueles que seguem os erros do próprio coração. Eu não lhes falei e eles vão profetizando. Se tivessem atendido ao meu conselho, ouvido as minhas palavras e as tivessem ensinado ao meu povo, eu os teria convertido dos seus perversos pensamentos" (Jeremias 23,16-22).
2. E de novo fala deles o Senhor: "Abandonaram a mim, que sou a fonte da água viva, e escavaram para si covas escuras, que nem podem dar água" (Jeremias 2:13).
3. Enquanto não pode haver senão um Batismo, eles pensam que podem ministrar o sacramento. Abandonaram a fonte da vida e ainda prometem a graça das águas que dá a vida e a salvação. Lá os homens não são purificados, mas, ao contrário, mais poluídos. Lá os pecados não são perdoados, mas, antes, aumentados. Aquele nascimento não gera filhos para Deus, mas para o demônio.
4. Os que pretendem nascer por meio da mentira não recebem absolutamente as promessas da verdade. Gerados pela perfídia, não alcançam a graça da fé. Aqueles que, no delírio da discórdia, quebraram a paz do Senhor, não podem chegar ao prêmio da paz.


XII - "Onde dois ou três..." (Mateus 18:20)


1. Alguns se enganam a si mesmos com uma presunçosa interpretação das palavras do Senhor, que disse: "Onde quer que se encontrem dois ou três reunidos em meu nome, eu mesmo estou com eles" (Mateus 18:20).
2. São falsificadores do Evangelho e intérpretes mentirosos. Apegam-se ao que é dito depois, esquecendo o que foi dito antes, lembram-se de uma parte da frase e, astutamente, deixam do lado a outra. Assim como eles se separaram da “Ekklésia”, do mesmo modo truncam o sentido de uma única sentença.
3. De fato, o que queria dizer nosso Senhor? Para inculcar aos seus discípulos a união e a paz, diz ele: "Eu vos afirmo que, se dois de vós concordarem na terra em pedir qualquer coisa, ela lhes será outorgada por meu Pai que está nos céus" (Mateus 18:19). E continua: "Onde quer que se encontrem dois ou três reunidos em meu nome, eu mesmo estou com eles", mostrando que o que mais vale na oração não é o número dos que oram, mas a sua união de espírito.
4. "Se dois de vós concordarem na terra", diz ele. Antes exige a união, põe na frente a paz: o seu primeiro e mais firme preceito é que entre nós haja acordo. E como poderá estar de acordo com alguém aquele que está em desacordo com o corpo da “Ekklésia” e a totalidade dos irmãos?
5. Como poderão estar reunidos dois ou três em nome de Cristo, se é patente que estão separados de Cristo e do seu Evangelho? De fato não somos nós que nos apartamos deles, mas eles de nós. E quando, em seguida, formando entre si vários grupos, deram origem a heresias e cismas, abandonaram a cabeça e a fonte da verdade.
6. O Senhor quer falar da sua “Ekklésia” e dirige aquelas palavras àqueles que estão na “Ekklésia”, dizendo que, se dois ou três deles estiverem concordes, como ele ensinou e mandou, e se reunirem em um só espírito para orar, embora sejam só dois ou três, impetrarão da majestade de Deus o que rogam.
7. "Onde quer que se encontrem reunidos em meu nome dois ou três, eu mesmo estou com eles", quer dizer com os simples, com os pacíficos, com os que temem a Deus e observam os seus preceitos. Com esses, ainda que não fossem mais do que dois ou três, prometeu que estaria, assim como esteve com os três jovens na fornalha ardente, e, porque permaneciam simples com Deus e unidos entre si, até no meio das chamas, os animou com uma brisa de orvalho (Dan 3,50).
8. Do mesmo modo esteve presente aos dois Apóstolos encerrados na cadeia, porque eram simples e unânimes. Ele mesmo abriu as portas do cárcere e os conduziu de novo à praça para que pregassem à multidão a palavra que tão fielmente anunciavam.
9. Por conseguinte, quando o Senhor coloca entre os seus preceitos estas palavras: "Onde quer que se encontrem dois ou três reunidos em meu nome, eu mesmo estou com eles", não quer separar os homens da “Ekklésia”, pois ele mesmo instituiu e formou a “Ekklésia”, mas ao contrário, repreendendo os pérfidos pela discórdia e encarecendo, com a sua própria voz, a paz aos fiéis, quer mostrar que ele está mais com dois ou três que oram unânimes, do que com muitos que oram na dissidência, e que obtém mais a prece concorde de poucos que a oração sediciosa de muitos.


XIII – Não achará a Deus propicio quem não estiver em paz com o irmão


1. Por isto, quando ensinou o modo de orar, acrescentou: "Quando estiverdes em pé para orar, perdoai se por acaso tendes mágoa contra alguém, a fim de que o vosso Pai que está nos céus vos perdoe também os pecados" (Marcos 11:25). E se alguém vier ao sacrifício, estando de mal com alguém, ele o afasta do altar e ordena que, antes, se ponha de acordo com o irmão, e só depois volte em paz para oferecer a Deus a sua dádiva [Cf Mateus 5].
2. Deus não olhou as oferendas de Caim [Gênesis 4], porque aquele que, pelo rancor da inveja, não tinha paz com o irmão, não podia encontrar a Deus propício.
3. Que espécie de paz podem pretender os inimigos dos irmãos? Que oblação pensam eles oferecer, enquanto nada mais são que rivais dos ministrantes? Julgam que Cristo esteja presente em seus ajuntamentos, enquanto se congregam fora da “Ekklésia” de Cristo?


XIV – Sequer o martírio anula a mácula da discórdia


1. Ainda que esses homens fossem mortos pelo testemunho do nome cristão, o seu sangue não lavaria esta mancha. O pecado da discórdia é tão grande e tão imperdoável, que não se apaga nem pelos tormentos. Não pode ser mártir quem não está na “Ekklésia”, não pode alcançar o Reino quem abandonou aquela que nasceu para reinar.
2. Cristo nos deu a paz. Ele nos mandou que fôssemos concordes e unidos, ordenou que os laços do amor e da caridade fossem conservados intactos e sem rachadura. Não pode iludir-se de ser mártir aquele que não conservou a fraterna caridade.
3. O apóstolo Paulo ensina e testemunha isto mesmo quando diz: "Ainda que eu tivesse fé para remover as montanhas, mas não tivesse a caridade, eu nada seria, ainda que distribuísse em alimento dos pobres tudo o que é meu, e entregasse o meu corpo às chamas, mas não tivesse a caridade de nada adiantaria. A caridade é magnânima, a caridade é benigna, a caridade não rivaliza, não faz mal, não se pavoneia, não se irrita, não pensa com maldade, tudo ama, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais termina" (I Corintios 13,1-9).
4. A caridade nunca termina, ela estará sempre no Reino, durará eternamente pela unidade dos irmãos em mútua harmonia. A discórdia não entra no Reino dos céus. Quem, com pérfida divisão, violou a caridade de Cristo, não poderá chegar aos prêmios do mesmo Cristo, que disse: "Este é o meu mandamento, que vos ameis mutuamente como eu vos amei" (João 15:12).
5. Quem vive sem caridade está sem Deus. Eis a voz do bem-aventurado apóstolo João: "Deus é amor. Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele" (1Jo 4,16). Não podem permanecer com Deus os que não quiseram estar unidos na “Ekklésia” de Deus. Ainda que, lançados no fogo, fossem consumidos pelas chamas ou perdessem a vida sendo expostos às feras, tudo isto não seria unia coroa da fé, mas, antes, um castigo da sua perfídia, não seria o desfecho glorioso de uma vida religiosa intrépida, mas um fim sem esperança.
6. Um homem assim poderia ser morto, mas não coroado. Ele confessa que é cristão do mesmo modo que o diabo, muitas vezes, engana dizendo ser ele o Cristo. Escutemos o aviso do Senhor: "Muitos virão com o meu nome, dizendo: sou eu o Cristo, e enganarão a muitos" (Marcos 13:16). Como o diabo não é Cristo, embora tome este nome, assim não pode passar por cristão aquele que não permanece na verdade do Evangelho e na fé de Cristo.


XV - A Lei do amor e Unidade


1. É certamente coisa incomum e admirável profetizar, expulsar demônios e fazer obras portentosas aqui na terra, mas quem faz todas essas coisas não conseguirá o Reino celeste se não anda no caminho reto e certo.
2. Ouçamos ainda o Senhor: "Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não te lembras que em teu nome profetizamos e em teu nome expulsamos demônios e em teu nome fizemos obras portentosas? Eu porém lhes direi: jamais vos conheci, apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade" (Mateus 7,21-23). É necessária a justiça para que alguém possa ser galardoado por Deus. É necessário obedecer aos seus mandamentos e aos seus avisos, para que os nossos méritos alcancem a recompensa.
3. O Senhor, no Evangelho, querendo mostrar-nos em breve resumo a senda da nossa fé e da nossa esperança, disse: "O Senhor, teu Deus, é um só", e continua: "Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças" (Marcos 12, 29-31). "Eis o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a ele: amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois preceitos funda-se toda a lei e também os profetas" (Mateus 22, 39-40).
4. Com a sua autoridade ensinou, ao mesmo tempo, a unidade e o amor. Em dois preceitos compendiou a lei e todos os Profetas. Mas que unidade observa, que amor pensa praticar aquele que, como insandecido pelo furor da discórdia, divide a “Ekklésia”, destrói a fé, perturba a paz, aniquila a caridade, profana o Sacramento?


XVI – Aberrações preditas


1. Este mal, ó irmãos fidelíssimos, já tinha começado algum tempo atrás, mas agora, como triste calamidade, foi crescendo dia a dia e a venenosa praga da heresia e dos cismas aparece e pulula sempre mais. Assim deve acontecer no fim do mundo, como nos vaticina e nos avisa o Espírito Santo por meio do Apóstolo: "Nos últimos dias, diz ele, chegarão tempos difíceis e haverá homens que só buscam os próprios gostos, soberbos, arrogantes, avarentos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, desalmados, sem afeição e sem respeito de compromisso, caluniadores, incontinentes, violentos, sem nenhum amor ao bem, traidores, atrevidos, estupidamente altivos, amando mais os prazeres que Deus, ostentando um verniz de religiosidade, mas conculcando todo valor religioso. Deles são os que se insinuam nas casas e conquistam mulherzinhas carregadas de pecados, que se deixam levar por várias volúpias e se mostram sempre curiosos de saber, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade. E como Jamnes e Mambres fizeram resistência contra Moisés, assim estes resistem à verdade. Mas não serão bem sucedidos, porque a sua incapacidade será a todos manifesta, como aconteceu àqueles" (II Tim 3, 1-9).
2. Tudo o que tinha sido preanunciado se está cumprindo e, enquanto se aproxima o fim do mundo, tudo se realiza nas pessoas e nos acontecimentos.
3. O adversário está solto. Cada vez mais, o erro vai espalhando os seus enganos. A insensatez gera orgulho, arde a inveja, a cobiça chega até à cegueira, a impiedade deprava, a soberba incha, a discórdia exaspera, a ira enfurece.



Parte III




XVII – Não ceder ao escândalo. Evitar os hereges


1. Porém não nos impressione nem perturbe essa desmedida e temerária perfídia de muitos. Ao contrário, torne-se mais forte a nossa fé ao constatarmos a verdade do que foi profetizado. Alguns fizeram-se traidores, porque assim fora predito; os demais irmãos, em virtude da mesma profecia, acautelem-se contra essas coisas, escutando a voz do Senhor, que diz: "Vós, porém, acautelai-vos, porque eis que eu vos predisse tudo" (Marcos 13:23).
2. Evitai, pois, eu vo-lo peço, irmãos, esses homens e repeli de vosso lado e de vossos ouvidos suas perniciosas conversas, como se repele um contágio mortífero. Está escrito: "Cerca os teus ouvidos com uma sebe de espinhos e não ouças a língua maldosa" - Eclesiástico 28:24 (1). E ainda: "As péssimas conversas corrompem até as pessoas de boa índole" (I Corintios 15:33). O Senhor nos recomenda que evitemos essa gente. "São cegos, diz ele, e guias de cegos. Quando é um cego que conduz outro cego, caem juntos na fossa" (Mateus 15:14).
3. Convém estar longe e fugir de qualquer um que se separou da “Ekklésia”. É um transviado, um culpado, ele se condena por si próprio [Cf Tito 3,11]. Poderá pensar que está com Cristo aquele que está tramando contra os ministros de Cristo e se separa da congregação do seu ministério e do seu povo? Ele levanta armas contra a “Ekklésia” e resiste às ordens de Deus. Adversário do altar, rebelde contra o Sacrifício de Cristo, traidor na fé, sacrílego na religião, servo intratável, filho ímpio, irmão inimigo, despreza os epíscopos e abandona os ministros de Deus e ousa erguer um outro altar, pronunciar com voz ilícita uma outra prece, profanar, com falsas oblações, o corpo do Senhor (2), e esquece que quem vai contra as ordens de Deus será punido com os divinos castigos pela sua atrevida audácia.


XVIII – Os profanadores do culto e a punição devida


1. Assim Coré, Datã e Abirão receberam, sem demora, o castigo da sua presunção, porque, violando as ordens de Moisés e do sacerdote Aarão, pretenderam usurpar o direito de oferecer sacrifícios [Cf Números 16, 31-35]. A terra perdeu a sua firmeza, fendeu-se numa profunda voragem, e o chão, assim aberto, os engoliu vivos e em pé. A justiça indignada de Deus não atingiu só os autores daquele gesto, mas também os outros duzentos e cinquenta, seus companheiros, que foram cúmplices e solidários com eles. De repente saiu do Senhor um fogo punitivo e os consumiu. Isto deve valer como demonstração e sinal de que foi ofensa contra Deus tudo o que aqueles perversos tentaram, com suas vontades humanas, para frustrar as ordens do próprio Deus.
2. Assim aconteceu também ao rei Ozias, quando segurou o turíbulo e, com violência, pretendeu oferecer ele mesmo o incenso, violando a lei de Deus e desobedecendo ao sacerdote Azarias, que a isto se opunha [Cf II Crônicas 26,16-20]. Lá mesmo foi confundido pela divina indignação e acometido por uma espécie de lepra na fronte. Pela sua ofensa a Deus, foi punido justamente naquela parte do corpo, onde recebem o sinal os eleitos de Deus.
3. Também os filhos de Aarão, por ter colocado no altar um fogo profano, contra os preceitos do Senhor, foram mortos no mesmo instante pela divina vingança [Cf Levítico 10, 1-2; Números 3].
XIX – Menos grave é o delito dos lapsos
1. São esses os exemplos que seguem e imitam os que buscam doutrinas estranhas, introduzem ensinamentos de invenção humana e desprezam a divina tradição. A eles aplicam-se as repreensões e as censuras do Evangelho: "Rejeitais o mandamento de Deus para apegar-vos à vossa própria tradição (mosaica)" (Marcos 7:90).
2. Este crime é pior do que aquele que se pensa terem cometido os lapsos, ao menos se falarmos dos que estão arrependidos e rogam a Deus perdão do seu pecado, dispostos a dar completa satisfação. Os lapsos, com súplicas, procuram a “Ekklésia”, os cismáticos combatem-na. Os primeiros podem ter sido vítimas de alguma pressão, os segundos erram no pleno uso da sua liberdade. O lapso, pecando, se prejudicou unicamente a si mesmo, ao passo que aquele que tenta criar heresias e cismas engana a muitos, arrastando-os à sua seita. Lá há detrimento de uma só alma, aqui o perigo é de muitos. O lapso reconhece que certamente pecou, disto lamenta-se e chora, o cismático, cheio de orgulho no seu coração e comprazendo-se dos seus próprios erros, arranca os filhos à mãe, afasta, com aliciamentos, as ovelhas do Pastor, arrasa os divinos Sacramentos.
3. O lapso pecou só uma vez, o outro continua pecando a cada dia. Por fim, o lapso, mais tarde, poderá enfrentar o martírio e conseguir as promessas do Reino, o cismático, ao contrário, se for morto enquanto está fora da “Ekklésia”, não alcançará os prêmios da “Ekklésia”.


XX – Confessores quedados (3)


1. Não deveis estranhar, irmãos diletíssimos, que até entre os confessores haja alguns que caíram nestes crimes. Acontece também que alguns deles cometam outros pecados graves e vergonhosos. A confissão da fé não torna uma pessoa imune das ciladas do demônio. A quem ainda vive neste mundo ela não comunica uma perpétua segurança contra as tentações, os perigos e o ímpeto dos ataques mundanos. Se assim fosse, não veríamos, em confessores, os roubos, os estupros e os adultérios, que agora, com imensa tristeza, devemos lamentar em alguns deles.
2. Quem quer que seja um confessor, ele não poderá ser maior, melhor e mais amigo de Deus que Salomão. Entretanto, este, durante o tempo em que se manteve nos caminhos do Senhor, conservou a benevolência com que o mesmo Senhor o tinha favorecido, mas quando se desviou destes caminhos, perdeu também a benevolência do Senhor [III Reis 11].
3. Por isto diz a Escritura: "Segura o que tens, para que um outro não tome a tua coroa" (Apocalipse 3,11). Se lá o Senhor ameaça tirar a alguém a coroa da justiça, é sinal que quem renuncia à justiça fica privado também da coroa.


XXI – A honra da condição de confessor pressupõe um correspondente exemplo


1. A confissão da fé é um preâmbulo da glória, mas não é ainda a posse da coroa. Não é a glória definitiva, mas só o início do mérito. Está escrito: "O que perseverar até o fim, este será salvo" (Mateus 10:22). Tudo, pois o que fazemos antes do fim é só um passo com o qual vamos subindo ao monte da salvação, mas só ao fim da subida chegaremos à posse perfeita do cume.
2. Trata-se de um confessor? Ora, depois da confissão da fé, o perigo torna-se maior, porque o adversário está mais enraivecido contra ele.
3. É confessor? Por isto, mais do que nunca, deve permanecer fiel ao Evangelho do Senhor, ele que pelo Evangelho conseguiu esta honra. Diz o Senhor: "A quem muito é dado, muito será pedido e a quem é concedida maior dignidade, deste exigem-se maiores serviços" (Lucas 12:48). Ninguém se deixe levar à perdição pelo mau exemplo de algum confessor. Ninguém aprenda, do seu modo de proceder, a injustiça, a arrogância ou a perfídia.
4. É confessor? Seja humilde e tranqüilo em todo o seu comportamento, seja disciplinado e modesto, de modo que, como é chamado confessor de Cristo, imite também aquele Cristo que confessa "Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado" (Lucas 18:14). Assim disse ele, e foi exaltado pelo Pai, porque, sendo ele a Palavra, a Virtude e a Sabedoria de Deus Pai, se humilhou a si mesmo na terra. E como poderia amar a altivez, ele que, com a sua lei nos preceituou a humildade, e, em prêmio da sua humildade, recebeu do Pai o nome mais sublime? [Cf Filipenses 2]
5. Alguém foi confessor de Cristo? Muito bem, mas, depois, por sua culpa, não sejam blasfemadas a majestade e a santidade do próprio Cristo. A língua que confessou a Cristo não seja maldizente nem sediciosa, não se ouça vociferando em altercações e brigas; depois de palavras tão divinas de louvor não vá vomitando veneno de serpente contra os irmãos e contra os sacerdotes de Deus.
6. Em suma, se alguém, depois da confissão, se tornou culpável e detestável, se aviltou a sua confissão com maus comportamentos, se manchou a sua vida com torpezas indignas, se, afinal, abandonou a “Ekklésia”, na qual se tornara confessor, e, quebrando a harmonia da unidade, trocou a fé de então com a perfídia, um tal homem não pode lisonjear-se, presumindo da sua confissão, de ser como que predestinado ao prêmio da glória. Ao contrário, por isto mesmo, aumentaram seus títulos para o castigo.


XXII – Apologia aos confessores


1. Vemos também que chamou a Judas entre os Apóstolos, e este Judas, em seguida, traiu o Senhor. A fé e a perseverança dos Apóstolos não esmoreceram pelo fato que Judas traidor tinha pertencido ao seu grupo. Igualmente em nosso caso: a santidade e a dignidade dos confessores não ficam destruídas, se naufragou a fé em alguns deles.
2. O bem-aventurado apóstolo Paulo diz numa das suas cartas: "Se alguns decaíram da fé, será que a sua infidelidade tornou vã a fidelidade de Deus? De modo algum. De fato, Deus é verídico e todo homem é mentiroso" (Romanos 3,3-4; Salmos 115:11).
3. A maioria e a parte melhor dos confessores mantém-se no vigor da sua fé e na verdade da lei e da disciplina do Senhor. Lembrando-se de ter alcançado a graça e a benevolência de Deus na “Ekklésia”, não se afastam da paz da mesma “Ekklésia”. Nisto merecem mais amplo louvor pela sua fé, porque, desligando-se da perfídia daqueles que já foram seus companheiros na confissão, resistiram ao contágio do mal. Esclarecidos pela luz verdadeira do Evangelho, brilhando na pura e cândida claridade do Senhor, mostram-se tão dignos de encômio na conservação da paz de Cristo, quanto o foram no combate, quando se tornaram vencedores do demônio.


XXIII – Apelo aos engodados


1. Quanto a mim, irmãos diletíssimos, não deixo de exortar e insistir, porque desejo que, se for possível, nenhum dentre os irmãos pereça, e a mãe aventurada (a “Ekklésia”) abranja no seu regaço o seu povo, unido na concórdia como um só corpo. Se, todavia, este salutar conselho não consegue reconduzir ao caminho da salvação certos chefes de cismas e certos autores de dissensão, preferindo eles obstinar-se em sua cega demência, ao menos os demais, os que foram surpreendidos na sua simplicidade, ou se deixaram desviar por algum equívoco, ou foram enganados pelo ardil de uma astúcia dissimulada, ao menos vós sacudi os laços falaciosos, livrai dos erros os vossos passos extraviados, sabei reconhecer o caminho reto que conduz ao céu.
2. Ouvi a voz do Apóstolo, que clama: "Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, nós vos mandamos, diz ele, que vos afasteis de todos os irmãos que andam desordenadamente e não segundo a tradição que receberam de nós" (II Tessalonicenses 3:6). E de novo: "Ninguém vos engane com vãs palavras. Por causa disto veio a ira de Deus sobre os filhos da contumácia. Não estejais, pois, ao lado deles" (Efésios 5, 6-7).
3. Deveis evitar os delinquentes e até fugir deles, para que não aconteça que, juntando-se aos que trilham os caminhos do erro e do crime, alguém se desvie também da verdade e se torne culpado de igual delito.
4. Deus é um, Cristo é um, uma é a sua “Ekklésia”, uma a fé e o povo (cristão) é também um, aglutinado pela concórdia como na compacta unidade de um corpo. Esta unidade não pode ser quebrada. Um corpo não pode ser dividido, desarticulando as suas junturas. Não pode ser reduzido a pedaços, dilacerando e arranhando as suas vísceras. Tudo o que se separa do centro vital não pode continuar a viver ou a respirar porque fica privado do alimento indispensável à vida.


XXIV – Felizes os promotores da paz


1. O Espírito Santo assim nos fala: "Quem é o homem que quer viver e deseja ver dias excelentes? Refreia do mal a tua língua, e os teus lábios não falem insidiosamente. Evita o mal e faze o bem, busca a paz e segue-a" (Salmos 33, 13-15). O filho da paz deve buscar a paz, deve procurá-la. Quem conhece e ama o vínculo da caridade deve guardar a sua língua do flagelo da dissensão.
2. O Senhor, já próximo à paixão, entre outros preceitos e ensinamentos salutares, acrescentou o seguinte: "Eu vos entrego a paz, eu vos dou a minha paz" (João 14:27). Esta é a herança que nos deixou. Todos os dons e todos os prêmios das suas promessas estão incluídos nisto: a inviolabilidade da paz.
3. Se somos co-herdeiros de Cristo [Cf Romanos 8], permaneçamos na paz de Cristo. Se somos filhos de Deus, sejamos pacíficos. "Bem-aventurados os pacíficos, diz, porque serão chamados filhos de Deus" (Mateus 5:9). Convém, pois, que os filhos de Deus sejam pacíficos, mansos de coração [Cf Mateus 11], simples quando falam, concordes nos afetos, sempre ligados uns aos outros pelos laços da unidade de espírito.


XXV – A primitiva congregação cristã: conduta modelar


1. Essa unidade reinou ao tempo dos Apóstolos e a nova coletividade, o povo dos que acreditaram, guardava os preceitos do Senhor e ficava fiel à sua caridade. Prova-o a divina Escritura, dizendo: "A multidão daqueles que acreditaram se comportava como se fossem todos uma só alma e uma só mente" (Atos 4:32).
2. E antes: "Estavam perseverando todos unânimes na oração com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos" (At 1,14). Por isto oravam de modo eficaz e podiam confiar em alcançar o que estavam pedindo à misericórdia divina.


XXVI – Exortação à vida cristã integral


1. Entre nós, ao contrário, esta união está demasiado relaxada, e ao mesmo tempo aparece muito enfraquecida a generosidade nas obras (boas). Então vendiam as suas casas e as suas propriedades e entregavam o preço aos Apóstolos, para que fosse distribuído aos pobres: assim colocavam seus tesouros no céu [Cf Mateus 6]. Hoje nem se dão os contributos dos patrimônios e, enquanto o Senhor diz "vendei" [Cf Lucas 1], nós preferimos comprar e possuir mais. Como, entre nós, murchou o vigor da fé, como esmoreceu a força daqueles que creem!
2. Por isto o Senhor, falando destes nossos tempos, diz no Evangelho: "Quando vier o Filho do homem, pensas que encontrará fé na terra?" (Lucas XVIII:VIII). Vemos que está acontecendo o que ele predisse. No que diz respeito ao temor de Deus, à lei da justiça, ao amor, às obras, não há mais fé. Ninguém se preocupa com as coisas que hão de vir, ninguém pensa no dia do Senhor, na ira de Deus, nos futuros suplícios dos incrédulos, nos eternos tormentos destinados aos pérfidos. Se crêssemos, a nossa consciência teria medo de tudo isto. Se não temos medo é sinal que não cremos. Quem acredita se acautela, quem se acautela se salva.
3. Despertemos, irmãos diletíssimos, quebremos o sono da inércia rotineira e, por quanto for possível, sejamos vigilantes em guardar e cumprir os preceitos do Senhor. Sejamos prontos, como ele seja, quando diz: "Estejam cingidos os vossos rins, e as lâmpadas acesas nas vossas mãos, e vós sede semelhantes a homens que esperam o seu dono, quando voltar das núpcias, para lhe abrirem logo que ele chegar e bater. Bem-aventurados os servos que o Senhor, chegando, encontrar vigilantes" (Lucas 12, 35-37). É necessário que estejamos cingidos, a fim de que, quando vier o dia da partida, não sejamos surpreendidos cheios de impedimentos e de embaraços. Fique sempre viva a nossa luz e brilhe em boas obras, para nos guiar da noite deste mundo aos esplendores da claridade eterna. Sempre solícitos e cautos, fiquemos à espera da chegada repentina do Senhor. Quando ele bater, encontre a nossa fé vigilante com uma tal vigilância que mereça receber o prêmio do mesmo Senhor.
4. Se forem observados esses mandamentos, se forem postas em prática essas exortações, não acontecerá que sejamos vencidos, no sono, pela falácia do demônio, mas, como servos bons e vigilantes, reinaremos com Cristo glorioso.


___________________________________________________________________________________________
(1) Cirpriano alude ao apócrifo veterotestamentário "Eclesiástico", então em vigor segundo a Coletânea Septuaginta (LXX). Posteriormente excluído sob a revisão literária reformista (séc. XVII). Ainda figura junto ao Cânon Católico Romano e Ortodoxo Oriental.
(2) Referindo-se ao "Memorial Eucarístico".
(3) "Confessores" - classe masculina cujas demonstrações ou testemunho de fé fizeram-se notórios, não vindo a culminar, todavia, no martírio.







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Re: Cipriano de Cartago e a Unidade Eclesial: sua atualidade temática

Mensagem  Sergio Teixeira em Seg Set 19, 2011 11:48 am

Esse santo Cipriano de Cartago não deve ser confundido com o "bruxo" e posteriormente convertido São Cipriano de Antioquia, ao qual se atribuem muitos e muitos livros de magia negra.
Esses livros são "mais falsos do que nota de 30 reais", visto que ao converter-se, Cipriano de Antioquia queimou todos os seus manuscritos.

Ambos os "Ciprianos", tanto o bispo de Cartago quanto o ex-feiticeiro de Antioquia foram condenados à morte, cada um à sua época e à sua localidade, sendo portanto considerados mártires segundo a ICAR.
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Re: Cipriano de Cartago e a Unidade Eclesial: sua atualidade temática

Mensagem  "Ekklésia Christiana" em Sex Mar 23, 2012 5:21 pm



Saudações cristãs,

Irmão Sérgio, prezado...





Pois é... Cipriano de Antioquia (tal qual diversos outros personagens patristicos) apresenta uma personalidade relativamente dúbia. Apesar de convertido e tendo abjurado de suas anteriores práticas, ainda mantinha, segundo seus biógrafos, uma postura essencialmente "mística". O mesmo se pode dizer de Orígenes de Alexandria (185-253 E.C.) cujo fascínio para com os postulados platônicos veio a redundar em sua proscrição (anatematização - 231 E.C.).

E o que dizer de Agostinho de Hipona (354-430 E.C.)? Desde púbere, moralmente decrépito... e, para desolação de Mônica (sua mãe) iniciado no Maniqueísmo...

No entanto, ainda que parcialmente, cada qual contribuiu para com aquilo que atualmente temos como legado histórico-doutrinário.

E, a bem da verdade (convenhamos) assim sucedeu para com muitos dentre nós. Se hoje trilhamos as pisadas apostólicas, noutros tempos vagamos por tenebrosas veredas.





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Re: Cipriano de Cartago e a Unidade Eclesial: sua atualidade temática

Mensagem  Sergio Teixeira em Sab Mar 24, 2012 9:48 am

Apesar de a História sempre distorcer de alguma forma os fatos, esses homens certamente deixaram sua valiosa contribuição no entendimento dos valores cristãos.
Mas se a História distorce alguma coisa, é em atendimento a influências muito poderosas, segundo suas próprias conveniências.
Hoje os grupos que exercem influências são chamados de "lobbies", e são perfeitamente visíveis na maioria das vezes. Até pouco mais da Idade Média, sabia-se perfeitamente de que direção vinham tais influências, mas não se podia ousar "apontar com o dedo"...

São Tomás de Aquino por exemplo, autor de diversas teorias sobre assuntos materiais porém sob orientação visivelmente espiritual, teve publicada apenas uma parte - a mais "conveniente" - de suas obras.
Entre elas a Teoria do Preço Justo, na qual hoje se baseiam - embora indiretamente - todos os princípios do marketing ético e dos direitos do consumidor.
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Re: Cipriano de Cartago e a Unidade Eclesial: sua atualidade temática

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