Congregação Cristã e Memorial da Paixão e Morte: consubstancialismo ou transubstancialismo?

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Congregação Cristã e Memorial da Paixão e Morte: consubstancialismo ou transubstancialismo?

Mensagem  "Ekklésia Christiana" em Qua Jun 06, 2012 6:38 pm


Saudações cristãs,

Amados...




O calendário liturgico católico romano celebra nesta quinta-feira* um dos seus mais célebres patrimônios histórico-doutrinários, rechaçado pelo protestantismo como sacrílego e um dos mais polêmicos alvos da tradicional querela entre ambas as alas.

Segundo a concepção transubstancialista, uma vez submetidos ao ritual eucarístico, pão e vinho convertem-se integralmente em corpo e sangue [de Cristo], apesar de nossa constituição sensorial (visão e paladar) o ignorarem. Trata-se, portanto, de um artigo de fé, sendo consequentemente acatado como um dogma alicerçado em "mystérion" (gr. transl.: "segredo sagrado"). Tal qual o catolicismo romano, as vertentes Ortodoxas Orientais atribuem ao alegado fenômeno um caráter indelével e/ou irrevogável (além das denominadas extensões eclesiais “sui juris”). Acredita-se que Inácio de Antioquia (107 E.C) em sua “Epístola aos Esminenses” já demonstrasse pendores pró-transubstancialistas.

O protestantismo em contrapartida opõe-se a tal postura, propondo-lhe o consubstancialismo como a mais coerente assertiva. Para tanto, recorre aos mais diversos referenciais como as Escrituras (canônicas), as ciências químicas e a lógica. Declara, deste modo, que pão e vinho consistem tão-somente em emblemas ou elementos simbólicos, cuja figura metaforicamente alude ao corpo e sangue de nosso Senhor.

Tanto Lutero quanto Calvino relegaram a transubstanciação à margem de suas respectivas constituições eclesiásticas. Henrique VIII - para a insatisfação das frentes reformistas inglesas - a manteve como um dos pilares de sua síntese de Fé (Ato dos Seis Artigos - 1539).





Além do Anglicanismo ou "Igreja Cristã da Inglaterra", algumas isoladas corporações “paraprotestantes” também se atém à transubstanciação como um princípio regular.


Congregação Cristã e Refeição Memorial: Niágara Falls


Embora nossa atual Declaração de Fé não mais se atenha aos “12 Artícoli di Fede” (Convenção ìtalo-americana de Niágara Falls - 1927) em sua íntegra**, aquele referente à refeição memorial permanece incólume.

Conforme disposto no artigo VIII:


“Nós cremos na Santa Ceia. Jesus Cristo, na noite em que foi traído, tomando o pão e havendo dado graças, partiu-o e deu-o aos discípulos, dizendo: “Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim”. Semelhantemente tomou o cálice, depois da ceia, dizendo: “Este cálice é o Novo Testamento no meu sangue, que é derramado por vós”. (Luc. 22:19-20; I Cor. 11:24-25).


Já na denominada “súmula brevíssima” de Max Tosetto (1), temos:


“Crença na celebração do Batismo e na Santa Ceia;” (ponto IX).


A apreciação do disposto - tanto em sua forma oficial como abreviada – nada nos fornece de conclusivo no tocante à questão. “Nós cremos...” ou “Crença na...” apenas pressupõe a observância do ato e não a maneira como este é teologicamente categorizado (transubstanciação/consubstanciação).

Francescon posicionava-se para com a refeição memorial como se tratando de uma ocasião ímpar. Inicialmente, a concebia como uma prática semanal e/ou dominical (2), deliberando-se, posteriormente, pelo paralelismo pascal - caráter anual (vide Histórico).

Supô-lo transubstancialista, porém, denotaria precipitação. Seus antecedentes teológico-doutrinários valdenses e calvinistas não comportariam tal proposição.

De qualquer modo, a ausência de um parecer contundente e cabal relativiza posturas dando-se margem à estravios e equívocos.

A Congregação Cristã - conforme crítica externa e interna – hesita em relação à temática, permitindo-se um escuso silêncio.

Além da determinação expedida pela Convenção Geral de 1936 acerca do pão necessariamente partido à mão (3) e o cálice unitário, temos algumas referências esparsas aludindo-se aos asmos e levedados, composição do vinho, utensílios, ministrantes e procedimentos, reconciliações prévias, etc (t.5 – 1983 / t.10 – 1995 / 1999 – t.14-16 / t.6 – 2010 / t.26 - 2011).

O t.10 (1995) e t.16 (1999) mencionam o pão e o vinho como representativos do corpo e sangue (consubstancialização), apesar disso um impasse se instaura com a publicação do polêmico tópico emitido pela septuagésima terceira assembleia geral (2008). Sua estrutura e composição sugerem uma evocação de cunho "semi-transubstancialista" (4):


“Senhor, abençoa este Pão que é a comunhão do corpo de Cristo”;

“Senhor, abençoa este Cálice que é a comunhão do sangue de Cristo”.



Ainda que ancorada em fragmentos literais (I coríntios 10:16 e afins) a medida tem suscitado reações um tanto reticentes.

Ademais, o caráter sacramental conferido ao evento por si mesmo denota uma transubstancialidade velada. Isto se torna ainda mais patente ao atentarmos às orientações expressas acerca das sobras (t.5 – 1983). Estas devem ser sepultadas em local adequado – razão pela qual a maioria de nossas casas de oração dispõem de um jardim ou espaço a descoberto assim destinado.

A reverência e trato para com os elementos advindos do Serviço realizado em si mesmos exprimem a modalidade de relação para com estes mantida.

Quando informalmente indagados acerca da ingestão alcoólica, nossos irmãos geralmente afirmam abster-se. Ao mencionar-se o serviço anual de Santa Ceia, de imediato se antepõem sob a habitual declaração:


“Depois de orado não é mais vinho, é o sangue do Senhor Jesus”.


Considerando-se os levantamentos e reflexões supracitados, o que concluir?

Encontramo-nos num estágio “semi-transubstancialista”?


_________________
* a quinta-feira imediata ao domingo da Santíssima Trindade - que por sua vez segue-se ao domingo de Pentecostes. Oficialmente instituída por Urbano IV sob a Bula "Transiturus" (11 de agosto de 1264).
** Do artigo I - Das Escrituras e seu caráter continente / Do artigo VI - Da fórmula dita "Concordata".
(1) responsável pela presidência e chancela da referida Convenção.
(2) Francescon manteve-se dominicalista por um considerável período, indispondo-se acerca do tema com alguns contemporâneos como Beretta, Ottolini e Menconi.
(3) à moda meso-oriental.
(4) não obstante, mantendo-se provisoriamente inalterados os hinos de n. 394 e 396.



Atenciosamente,

“Em Caridade”

Irmão Ednelson

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Re: Congregação Cristã e Memorial da Paixão e Morte: consubstancialismo ou transubstancialismo?

Mensagem  Sergio Teixeira em Qui Jun 07, 2012 2:10 am

Mais uma vez a literalidade poderá nos pregar peças.

Entrando por um momento no "modus pensandi et operandi" do Mestre, constatamos que Ele fazia grande uso de símbolos, de parábolas, enfim, de uma linguagem simbólica ou metafórica que, quando bem utilizada, é bem mais inteligível por pessoas símplices, a quem Ele dirigia seus ensinamentos.

Ele não abriu literalmente as veias ou artérias para oferecer-nos o seu fluxo sanguíneo, nem rasgou a própria carne para nos oferecer seus tecidos musculares.
Muito menos nos sugeriu quaisquer práticas canibalescas.
Igualmente quando se fala em "coração" devemos estar certos de que não se trata do músculo chamado "miocárdio", mas daquilo que acreditamos e convencionamos ser a séde da Alma.

O Mestre jamais foi literal.

Ele nos ofereceu a metáfora do Vinho (substância viva que tonifica, dá vigor e é comparável ao sangue) e a do Pão (que por ser alimento, representa a Sua carne) em uma ocasião específica e solene, uma espécie de "Sabbath" especial a ser realizado em Sua memória *.
Dessa forma, estaríamos nós periodicamente congregados com Ele (mais que apenas com Sua memória, mas a Sua presença em símbolo), nos alimentando espiritualmente.

Então em símbolo, o cálice* e o pão se transformam por um ato de Fé no Sangue e no Corpo de Cristo.

Para os judeus a Páscoa (Pessach) representa a passagem vitoriosa pelo Mar Vermelho, mas para os cristãos tem outro significado (e portanto outro nome: Santa Ceia), representativo da nossa Vitória através de Cristo.
Tenhamos em mente que não foram o seu martírio ou crucifixão o que realmente nos remiu, porém os Seus Ensinamentos e a Vida que Ele nos transmite pelo rito da Santa Ceia.
Então o seu martírio é para nós a evidência de Sua provação, mas também o início de nossa vitória - nossa juntamente com Ele, irmanados por esse símbolo vivo, por esse ato de Fé, por essa grande comunhão.

Certamente o entendimento oficial pode pender para alguma literalidade e caminhar em alguma outra direção. Mais uma vez não estou" forçando nenhuma barra", ou achando que a CCB deveria pensar desta ou daquela formas, mudar doutrinas, nada disso.
Trata-se apenas de uma opinião pessoal, com base na observação dos textos e na leitura das entrelinhas, utilizando-me de engenharia do conhecimento, já que sou (fui?) analista de sistemas.

Para quem é literal, Cristo morreu para nos salvar.
Porém, se observarmos melhor, a Sua obra está contida mais apropriadamente em Sua Vida, em Seus Ensinamentos e em sua Ressurreição, onde se tornou vitorioso sobre todas as coisas.
Ele venceu e nos ensinou a vencer.
Não sejamos porém literais, senão teremos primeiramente de ser açoitados, crucificados, e passar 3 dias em uma sepultura...
Bem aventurados os que ceam na presença do Senhor em Espírito , Verdade e simplicidade, sem se preocupar com as teorias. O símbolo vale mais que a ritualística, já que é executado integralmente no cenáculo de nossos corações.

Que Deus nos abençoe a todos.



* Justificado, já que Ele e o Pai se tornaram um. Nada de mais na acepção desse "Sabbath", se levarmos esse detalhe em consideração.

* Lembremo-nos de que a representatividade simbólica está no cálice, e não propriamente no vinho, segundo a doutrina professada pela CCB.
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Re: Congregação Cristã e Memorial da Paixão e Morte: consubstancialismo ou transubstancialismo?

Mensagem  "Ekklésia Christiana" em Ter Jun 12, 2012 11:30 am


Saudações cristãs,

Irmão Sérgio...




Eis a questão:


"* Lembremo-nos de que a representatividade simbólica está no cálice, e não propriamente no vinho, segundo a doutrina professada pela CCB."


Pareceu-nos oportuno (a mim e ao Administrador) omitir-nos em relação a esse particular, a fim de não se exaurir o tópico em toda a sua amplitude. De qualquer modo, o comentário acerca do cálice era já previsível, tendo-se nele um foco de acirrada polêmica.

Segundo Ancião Sebastião Idalino (em Serviço Sacro de Santa Ceia - São Paulo / Capital) a razão pela qual o cálice permanece vazio ao longo da oração de graças, se deve ao fato de que após concluída a prece "todo o conteúdo nele deitado torna-se verdadeiramente o sangue de nosso Senhor Jesus Cristo"...





cavaleiro templário e o graal


Ora, a declaração é de caráter tendenciosamente transubstancialista. Além disso, conforme mencionado pelo irmão, sequer o vinho é citado (apesar de subentendido), de modo que "conteúdo" atua como uma alusão genérica e perniciosamente vaga.

A "Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias", por exemplo, utilizando-se de suas prerrogativas sectário-exclusivistas, delibera pela supressão do vinho ou mosto por água tão-somente. Alega-se - dentre outros - que nosso Senhor apenas recorreu ao vinho por tê-lo em mãos, uma vez que água e vinho lhe eram indiferentes (Bodas de Caná - João 2, 1-12).

Estaríamos às voltas com uma versão contemporaneizada do "Santo Graal" e sua potencialidade alquímica?...




Atenciosamente,

"Em Caridade"

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Re: Congregação Cristã e Memorial da Paixão e Morte: consubstancialismo ou transubstancialismo?

Mensagem  Sergio Teixeira em Ter Jun 12, 2012 2:27 pm

"* Lembremo-nos de que a representatividade simbólica está no cálice, e não propriamente no vinho, segundo a doutrina professada pela CCB."
Eis um terreno onde não é muito prudente formarmos conjeturas, visto que muitas serão as correntes de interpretação. Acrescentar mais uma não seria realmente nada útil.
Existe realmente uma forte insinuação transubstancialista, e inclusive isso justificaria até mesmo o uso da água, já que o Senhor Jesus teve o poder de transformar a água em vinho (em outro contexto, porém).
Na CCB o conteúdo do cálice é, sem dúvida alguma, o vinho, produto obtido da enificação do fruto da vide.
Minha citação se deve ao fato de que esse detalhe é muito exortado por aqui, jamais falando no "cálice vazio", mas dando a entender o valor de seu conteúdo, o qual representa no rito da Santa Ceia o próprio Sangue que nos foi ofertado pelo Cristo.
Porém devemos considerar que todo e qualquer símbolo deve ser entendido com uma "objetividade subjetiva" (?), ou seja, o pão e o conteúdo do cálice verdadeiramente se transusbstanciam - conforme sugerido - em Carne do Cristo e Sangue do Cristo, porém inteiramente dentro de nossos corações, através de um ato de Fé, e não de transformação física.
A oração sobre o pão e sobre o cálice é como um "trigger" (gatilho) que desencadeia o ato de Fé.
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Re: Congregação Cristã e Memorial da Paixão e Morte: consubstancialismo ou transubstancialismo?

Mensagem  CRISTÃODACCB em Ter Nov 06, 2012 4:58 pm

A Congregação Cristã no Brasil conforme sua doutrina e tópicos de ensinamentos Cre na necessidade de praticarmos o Memorial da Morte de Cristo a Santa Ceia, nossa doutrina é Clara, o Calice é a comunhão com o Sangue de Cristo e o pão é a comunhão com o corpo de Cristo,ou seja é relembrarmos que JESUS MORREU PARA REMISSÃO DE NOSSOS PECADOS E RECUSSITOU PARA NOSSA JUSTIFICAÇÃO- comunhão= Estar em pleno acordo com O Evangelho,o Pão A palavra o Vinho a doutrina.

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Re: Congregação Cristã e Memorial da Paixão e Morte: consubstancialismo ou transubstancialismo?

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