Evangélicos no Brasil: Perfil socioeconômico, afinidades ideológicas e determinantes do comportamento eleitoral (Parte I)

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Evangélicos no Brasil: Perfil socioeconômico, afinidades ideológicas e determinantes do comportamento eleitoral (Parte I)

Mensagem  "Ekklésia Christiana" em Seg Maio 21, 2012 11:24 am





Evangélicos no Brasil:

Perfil socioeconômico, afinidades ideológicas e determinantes do comportamento eleitoral



Simone R. Bohn


(Programa de Pós-Doutoramento em Ciência Política da Universidade de São Paulo)




RESUMO

O artigo estuda as características socioeconômicas, opiniões e preferências dos evangélicos no Brasil. Os dados mostram uma forte tendência deste grupo a opiniões mais conservadoras, comparado a outros grupos religiosos. O artigo utiliza os dados do ESEB 2002.

Palavras-chave: Estudo Eleitoral Brasileiro; religião; comportamento eleitoral; evangélicos; cultura política


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ABSTRACT

The article analyses the socioeconomic aspects, opinions and political preferences of the evangelics in Brazil. The data show in this group a strong tendency to more conservative opinions, compared to other religions groups. The data come from the 2002 Brazilian Electoral Study.

Keywords: Brazilian Electoral Study; religion; electoral behavior; evangelics; political culture


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Dos cerca de 170 milhões de brasileiros, 26 milhões – ou seja, quinze por cento do total – se declararam, em 2000, como pertencendo à religião evangélica. O crescimento espantoso desse grupo e sua visibilidade na arena política nacional o tornaram objeto de diversos estudos. Em 1980, existiam 7.8 milhões de evangélicos no país. Esse grupo religioso também vem crescendo entre os legisladores e membros eleitos do Poder Executivo.

O objetivo desse trabalho é analisar três interpretações que emergem na literatura recente sobre o segmento evangélico. Em primeiro lugar, existe uma interpretação segundo a qual os evangélicos estariam associados a condições econômicas e sociais bastante adversas. A opção pelo evangelismo seria, portanto, característica de segmentos sociais desprovidos de recursos financeiros.

Enquanto essa primeira interpretação procura entender as razões subjacentes ao aumento do público evangélico, uma segunda busca captar seu padrão de comportamento político. Ela explicitamente vincula o público evangélico a posições usualmente associadas à direita do espectro político-ideológico. Em virtude de seu posicionamento moral e político, os evangélicos seriam, desse modo, parte da base social de uma "nova direita". Por fim, há o tópico dos determinantes do voto. A filiação evangélica, de acordo com alguns trabalhos, geraria lealdades políticas automáticas, no sentido do privilegiamento de candidaturas de nomes ligados ao evangelismo.

Nas próximas seções, além de tentar ratificar esses diagnósticos, mapearemos o comportamento político-eleitoral dos evangélicos no que se refere aos seguintes elementos: (1) seu nível de sofisticação política; (2) sua preferência partidária; e (3) os principais determinantes de seu comportamento eleitoral.



O crescimento do público evangélico e seu comportamento eleitoral: algumas interpretações


Uma das principais novidades da arena religiosa no Brasil nas últimas décadas tem sido o crescimento das religiões evangélicas (Tabela 1). Se, em 1980, os evangélicos correspondiam a cerca de 6.6% da população brasileira, o último censo revelou que, em 2000, os adeptos dessas religiões perfazem aproximadamente 14,6 % do total dos brasileiros (IBGE, 2000).








Interpretações que enfatizam a existência de uma onda de ressacralização da existência – ou de "reencantamento do mundo" – são claramente insuficientes para apreender esse aumento da adesão à fé evangélica, uma vez que sua ocorrência é simultânea a um grande crescimento (absoluto e relativo) do número de brasileiros sem quaisquer vínculos religiosos1. Em 1980, esse último grupo se limitava a 1.6% da população – em 2000, chegou ao nível de 7.3% da população.

Alguns autores associam os dois fenômenos – o crescimento tanto da adesão ao evangelismo quanto do público irreligioso – ao deslocamento da centralidade da Igreja católica na conformação das relações entre Estado e religiões no Brasil2. De fato, apesar de os brasileiros ainda serem predominantemente católicos, a porcentagem dos membros pertencentes à Igreja Católica decresceu, em duas décadas, de 88.9% para 73.8%. Enquanto que a população brasileira cresceu, entre 1980 e 2000, cerca de 42.3%, o público católico cresceu apenas 18.1%. Ou seja, a Igreja Católica vem perdendo espaço.

Essa interpretação que aponta o declínio da preeminência da Igreja Católica como fator importante no entendimento do aumento dos aderentes a outras religiões é insuficiente, no entanto, para a compreensão da perda de membros por parte das religiões afro-brasileiras (candomblé e umbanda) que, como confissões mediúnicas, teriam sido perseguidas nos períodos de hegemonia católica3.

Quaisquer que sejam as razões da atração de membros das religiões católica e afro-brasileiras, o fato é que o crescimento do segmento evangélico não tem sido homogêneo. Entre 1980 e 2000, o crescimento desse grupo foi significativamente maior na região nordeste do que nas demais áreas do país – sobretudo o sul4. Além disso, as religiões evangélicas pentecostais cresceram muito mais que as históricas5. De acordo com alguns autores, o avanço do evangelismo pentecostal6 pode ter sido facilitado pelo fato de o pentecostalismo não se tratar de uma religião inteiramente estrangeira, já que contém alguns elementos que são similares às práticas mediúnicas das religiões afro-brasileiras7.

Um outro padrão de explicação para o crescimento dos evangélicos volta-se para a deterioração do quadro socioeconômico do país. Segundo Fernandes et al (1998, p. 25), o "crescimento notável dos evangélicos decorre, sobretudo, de escolhas feitas pelos pobres". De acordo com outros autores, há uma forte associação não entre evangélicos em geral e agravamento da situação econômica, mas entre membros de igrejas pentecostais e condições indicativas de pobreza (PIERUCCI & PRANDI, 1995; MONTERO & ALMEIDA, 2000). Segundo Novaes (2001), os evangélicos pentecostais, além de possuir membros entre as camadas sociais menos privadas de recursos financeiros, conseguem penetrar nas franjas da sociedade: em áreas que têm se mostrado inalcançáveis para outros segmentos religiosos. São setores sociais (e espaços geográficos) que, por sua precariedade de condições, revelam, por outro lado, a mais completa ausência do poder público8.

O segmento evangélico é objeto de atenção acadêmica não só em virtude da sua expansão e da velocidade e natureza de seu crescimento e de sua eventual associação com a pobreza. A visibilidade dos evangélicos na arena eleitoral (sobretudo sua constante e cada vez maior presença na Câmara dos Deputados9), atrai olhares curiosos para quais seriam as bases de comportamento dos eleitores brasileiros pertencentes a essas denominações. Há uniformidades – no que se refere aos determinantes do voto, aos níveis de participação política, às atitudes cívicas, ao posicionamento ideológico – entre as diferentes denominações?

Diversos trabalhos demonstraram que a tese de que os evangélicos seriam totalmente apáticos em relação à esfera política não se sustenta (NOVAES, 1985; BURDICK, 1993; GOMES, 1996)10. Diante dessa constatação, vários mapeamentos do comportamento político dos evangélicos foram feitos. Baseado na atuação dos deputados federais na Assembléia Nacional Constituinte, Pierucci (1989), por exemplo, apesar de reconhecer a existência do que ele denomina de uma "esquerda evangélica", afirma que os parlamentares membros das denominações pentecostais e não-pentecostais compõem uma espécie de "nova direita", na medida em que, além da defesa de bandeiras socioeconômicas direitistas tradicionais, eles se auto-proclamam como os guardiões de uma moralidade familiar e social. Pierucci ressalta, no entanto, que, a despeito dessas similaridades, a bancada evangélica da legislatura não apresentou uma completa homogeneidade política e ideológica – um indicativo, segundo ele, da heterogeneidade das "bases de apoio" desse grupo11.

Pierucci & Mariano (1992) mostram que o rechaço à candidatura esquerdista de Lula e a opção e trabalho pela candidatura de Fernando Collor, em 1989, decorreram do receio das lideranças evangélicas em relação a dois possíveis cenários: a implantação de um "comunismo ateu" numa eventual vitória de Lula, ou a retomada da preeminência da Igreja Católica, sobretudo dos setores ligados ao Partido dos Trabalhadores. Pierucci & Prandi (1995), por sua vez, abandonam a perspectiva das lideranças e analisam o comportamento eleitoral dos evangélicos através de um survey. Assim como os demais trabalhos, no entanto, eles também acentuam os traços anti-esquerdistas de segmentos do campo evangélico ao detalhar que, pelo menos no que se refere à eleição presidencial de 1994, os pentecostais foram o grupo religioso que mais rejeitou a candidatura Lula.

Além do posicionamento do público evangélico à direita do espectro político-partidário, há a questão dos determinantes do seu voto. Fonseca (2002, p. 237), afirma que os "eleitores evangélicos votam em seus pares, seus irmãos e pastores (...)"12. Fernandes et al (1998, p. 125), por sua vez, mostram que essa associação é especialmente intensa no que se refere aos pentecostais da Igreja Universal do Reino de Deus. Novaes (2001, p. 75), por outro lado, discorda da existência de lealdades religiosas automáticas a determinadas ofertas partidário-eleitorais, uma vez que, diante da enorme quantidade de igrejas evangélicas, "não há garantias de consensos entre denominações, nem de que evangélicos votem necessariamente de acordo com a orientação do pastor (...)".

De fato, as igrejas evangélicas são bastante diversas. Fernandes et al (1998) se depararam com 55 diferentes denominações. Na pesquisa ESEB 2002, cujos dados são utilizados aqui e detalhados adiante, exatas 68 denominações foram encontradas. Diante dessa variedade, é possível encontrar homogeneidade de comportamento político e eleitoral?

Uma consideração é fundamental antes de prosseguirmos em direção à exposição dos dados. O campo religioso evangélico está submetido a dois tipos de movimentos que atuam em direções contrárias. Um é caracteristicamente centrífugo, e o outro, centrípeto. Ambos, no entanto, têm impactos sobre as possibilidades de tradução da filiação religiosa em lealdade política. Por um lado, a ênfase evangélica na fidelidade ao local de culto evidentemente constitui-se num incentivo a um movimento de quase cissiparidade que afeta todas as denominações13. Essa ênfase no local de culto evidentemente inibe a formação de órgão(s) hierárquico(s) central(is) – de equivalentes ao papado católico em Roma – que possa(m) induzir (ou agregar) e veicular preferências políticas homogêneas. Além disso, a intensa competitividade entre as diversas denominações também dificulta a constituição de pautas de ação política comuns14.

Por outro lado, por mais paradoxal que possa parecer diante do chamado "trânsito religioso" mencionado acima, as diferentes denominações evangélicas se homogeneizam em torno de uma exigência de dedicação exclusiva ao culto. Essa demanda tem implicações importantes, já que aumenta significativamente – conforme veremos a seguir – os níveis de assiduidade dos seus membros aos cultos e, conseqüentemente, sua exposição à autoridade religiosa. Portanto, se, por um lado, há um mercado religioso competitivo, por outro, as autoridades das igrejas evangélicas são significativamente mais presentes na vida de seus membros. Ou seja, as lideranças evangélicas, em virtude da maior assiduidade dos fiéis, têm mais espaço para influenciá-los politicamente – se assim o desejarem. Esse ponto ficará mais claro adiante, quando examinarmos o nível de religiosidade do segmento evangélico – medido em termos de sua assiduidade ao culto – em comparação com as outras religiões.



Os dados do ESEB


Realizada entre 31 de outubro e 28 de dezembro de 2002, o survey pós-eleitoral que compõe o Estudo Eleitoral Brasileiro (ESEB) utilizou-se de uma amostra probabilística sem substituição que abrangeu todas as regiões do país, num total de 2.513 entrevistas. No total, foram encontradas 88 diferentes religiões (contando individualmente cada uma das denominações evangélicas). Trabalharemos com duas sub-amostras, que categorizam os dados diferentemente. A primeira (Tabela 2) agrega todos os principais grupos religiosos e mantém os evangélicos não-pentecostais e pentecostais agregados num mesmo bloco15. O objetivo dessa agregação é caracterizar o público evangélico na comparação com os demais grupos religiosos, tentando captar eventuais diferenças entre os diversos segmentos.






A segunda categorização enfoca especificamente o público evangélico e busca analisar as diferenças e homogeneidades inter-denominacionais. Por razões de densidade estatística trabalharemos com as seguintes denominações: Assembléia de Deus, Congregação Cristã no Brasil, Igreja Universal do Reino de Deus e Igreja Batista.



O perfil socioeconômico


O mapeamento do perfil socioeconômico dos diferentes grupos religiosos aqui realizado baseou-se nas duas variáveis clássicas a esse respeito: renda (mensal) e nível de escolaridade. A literatura corrente afirma haver, conforme já mencionamos, uma associação entre religião evangélica e precárias condições socioeconômicas. Deveríamos esperar, portanto, uma concentração de pessoas com baixa renda e baixo nível educacional entre os fiéis evangélicos.

O Gráfico 1 contém as informações relativas à renda16. Há sete categorias de renda, desde no máximo um salário mínimo até mais de dez salários mínimos. De fato, como assinala a literatura, a maior parte dos membros das igrejas evangélicas advém de estratos sociais de baixa renda. Cerca de 67.7% dos evangélicos recebem mensalmente, no máximo, dois salários mínimos. Entre os dois segmentos sociais de maior renda (mais de seis salários mínimos), somente 8.9% optaram por se filiar ao credo evangélico.

O interessante a observar no Gráfico 1, no entanto, é que esse perfil dos evangélicos guarda muitas similaridades em relação aos católicos e aos adeptos das religiões afro-brasileiras. Na verdade, encontram-se nesses dois últimos grupos as maiores concentrações (em termos relativos) de brasileiros com renda mensal de até dois salários mínimos: 77.3% (candomblé e umbanda) e 71.7% (católicos). Portanto, se há uma associação entre condições econômicas precárias e filiação à religião evangélica, essa associação – ao contrário do que parece sugerir a literatura – não é exclusiva a essa confissão.

Poderíamos pensar que essa similaridade decorre do fato de o pertencimento à uma religião ser, no Brasil, uma opção dos estratos sociais de baixa renda. No entanto, os dados mostram que 59.7% das pessoas sem vínculo religioso pertencem aos dois segmentos mais baixos de renda (Tabela 4). O perfil dos adeptos da religião kardecista valida esse mesmo ponto de uma maneira diferente. Entre eles, cerca de 36.7% dos praticantes advêm dos dois estratos sociais mais abastados da sociedade brasileira. Entre os sem religião, esse mesmo número corresponde a 14.6%. Isso significa que a probabilidade de um indivíduo com renda elevada não ter religião é ligeiramente maior do que a probabilidade de ele ser católico, evangélico, candombleísta ou umbandista – mas é bem menor do que a probabilidade de ele ser praticante do kardecismo. É incorreto, portanto, afirmar categoricamente que a religiosidade, no Brasil, seja um fenômeno próprio aos segmentos menos privilegiados e que os grupos sociais mais abastados sejam maciçamente sem religião.











Quando focamos apenas no segmento evangélico, vemos que há diferenças sensíveis em relação aos seus perfis socioeconômicos (Gráfico 2)17. Enquanto 70.3% dos membros das denominações pentecostais recebem mensalmente, no máximo, dois salários mínimos, entre os fiéis das religiões não-pentecostais essa proporção é de 58.3%. O contraste maior entre os dois grupos aparece na porcentagem de pessoas mais abastadas. Entre os pentecostais, essa proporção é de 6.8%; já entre os não-pentecostais, chega a 16.7%. Em ambos os grupos, há uma relação linear negativa entre renda e religião: quanto maior a renda mensal, menor a probabilidade de uma pessoa ser evangélica; no entanto, se um indivíduo com uma renda elevada optar pela confissão evangélica, a probabilidade de ele ser membro de uma religião não-pentecostal é maior do que ele ser um fiel das denominações pentecostais.

No que se refere aos níveis educacionais, católicos e evangélicos têm perfis bastante similares (Gráfico 3)18. Enquanto entre os católicos 58.1% não concluíram o ensino fundamental, entre os evangélicos, esse número é 54.0%. As pessoas com nível superior completo que se consideram fiéis da Igreja Católica correspondem a 6.3% do total dos adeptos dessa religião. Entre os evangélicos, essa proporção é de 5.6%. O perfil de católicos e evangélicos contrasta fortemente com o dos kardecistas: entre esses últimos, 23.8% possuem nível universitário completo e apenas 27.0% não concluíram o ensino fundamental.

Apesar da similaridade com o perfil dos católicos e do contraste com os kardecistas, de fato, os dados revelam, consoante a literatura, uma relação linear negativa entre nível educacional e pertencimento à religião evangélica: quando maior a educação formal, mais baixos são os níveis de filiação a esse grupo religioso. Essa relação ou inexiste entre os outros grupos religiosos, ou é muito tênue. No entanto, que entre as pessoas com mais baixo nível educacional, a primeira preferência é ser católico – e não evangélico. Similarmente, o evangelismo não é a última escolha das pessoas com nível superior completo – e sim as religiões afro-brasileiras. Desse modo, se de fato há uma maior concentração de pessoas de baixo nível educacional entre os evangélicos (em comparação com outros graus de escolaridade), essa associação é bastante semelhante à existente entre os católicos.

Evangélicos pentecostais realmente possuem um menor nível de escolaridade que os evangélicos não-pentecostais (Tabela 5). Entre os que não concluíram o ensino fundamental, há quase o dobro de chance de uma pessoa ser adepta de uma religião pentecostal do que não-pentecostal. Cerca de 15.7% dos evangélicos não-pentecostais têm nível superior. Entre os membros das denominações não-pentecostais, essa proporção é de apenas 2.2%.






Com exceção da Igreja Universal do Reino de Deus, todas as denominações pentecostais têm perfil educacional bastante semelhante (Gráfico 4)19. Diferentemente dos fiéis da Assembléia de Deus e da Congregação Cristã no Brasil, mais da metade dos membros da Universal concluiu pelo menos o ensino fundamental. Além disso, cerca de 33.3% dos fiéis da Universal possuem o segundo grau completo – mais que o dobro das outras denominações. No caso de Assembléia de Deus e Congregação Cristã no Brasil, quanto maior o nível educacional, menor é a probabilidade de pertencimento à denominação.

Do lado das religiões evangélicas não-pentecostais, entre os batistas, apenas 37.2% não completaram o ensino fundamental. Esse número é ainda menor no que se refere às demais denominações não-pentecostais: apenas 28.2%. Há muitas similaridades entre batistas e membros da Igreja Universal do Reino de Deus no que se refere à proporção de indivíduos que concluiu os níveis fundamental e secundário: 13.7% e 33.3%, no caso dos batistas; e 14.8% e 33.3%, no caso da Universal, respectivamente.

O aporte de pessoas com nível universitário consiste num importante diferencial entre as denominações pentecostais e não-pentecostais. Entre os primeiros, a maior porcentagem de indivíduos com título universitário é de 5.3% – entre os membros da Congregação Cristã no Brasil. Entre os batistas e outros fiéis não-pentecostais, esse nível é três vezes maior – supera os 15%.

Se renda e educação não diferenciam claramente os evangélicos de outros grupos religiosos (como os católicos e membros do candomblé e umbanda), embora seja um importante divisor entre as denominações pentecostais e não-pentecostais, o grau de religiosidade é uma variável que distingue o evangelismo de maneira inequívoca. Por nível de religiosidade entendemos não a intensidade das crenças do fiel, mas seu grau de exposição às autoridades religiosas – medido pela freqüência com a qual ele participa de missas ou de cultos. Desse modo, um baixo grau de religiosidade indica que o fiel raramente vai a missas e cultos ou só participa deles algumas vezes por ano. Fiéis que possuem um nível médio de religiosidade vão à Igreja uma ou duas vezes por mês. Já o nível alto é composto por pessoas que vão à missa ou ao culto uma ou mais vezes por semana.

Como pode ser visto no Gráfico 520, os evangélicos têm um alto grau de exposição às autoridades religiosas. Cerca de 82.6% deles vão ao culto uma ou mais vezes por semana. Os adeptos das religiões afro-brasileiras e do kardecismo são os que mais se aproximam do perfil evangélico: 50.0% e 49.2% deles, respectivamente, têm um alto grau de exposição às autoridades religiosas. Entre os católicos, esse número corresponde a apenas 35.7%. Cerca de 41.6% dos católicos não vão ou raramente vão a missas. Já entre os evangélicos, essa porcentagem decresce para somente 9.9%.

Esse elevado grau de exposição às autoridades religiosas é uma constante em todas as denominações evangélicas (Tabela 6). Mais uma vez, uma importante diferenciação aparece entre pentecostais e não-pentecostais: apesar de a porcentagem dos adeptos da religião batista que participa de cultos uma ou mais vezes (80.4%) ser bastante semelhante à dos membros da Assembléia de Deus (80.3%), cerca de 15.7% dos primeiros raramente vão ou só participam de cultos algumas vezes por ano. O mesmo se aplica aos membros de outras denominações não-pentecostais: entre eles, aproximadamente 17.9% têm um baixo grau de exposição às autoridades religiosas.






De todas as denominações examinadas, os fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus são os mais assíduos: nove em cada dez freqüentam o culto uma ou mais vezes por semana. O caso dos membros da Universal chama a atenção, além disso, em virtude de outra razão. Quando todas as denominações evangélicas são analisadas em conjunto, os grupos com melhores níveis educacionais (batistas e outros grupos não-pentecostais) são simultaneamente os que possuem os menores graus de assiduidade. Quando nos restringimos somente ao segmento evangélico pentecostal, vemos que essa relação se inverte: os membros da Universal que compõem a denominação (entre os pentecostais) com grau considerável de educação formal, são os mais expostos às autoridades religiosas.

Essa variável – grau de exposição às autoridades religiosas –, medida pelo nível de assiduidade às missas ou cultos nos fornece duas considerações importantes. Por um lado, ela cria uma diferenciação entre católicos e evangélicos, cujos perfis são indistingüíveis quando somente renda mensal e nível de escolaridade são examinados. Portanto, caso existam diferenças entre esses dois grupos no que se refere ao padrão de comportamento político e eleitoral, elas não poderão ser atribuídas ao nível educacional, e vão estar mais conectadas com diferenças de socialização religiosa. Por outro lado, permite ainda diferenciações no interior do segmento evangélico, na medida em que o caso dos fiéis da Igreja Universal do Reino de Deus inverte a relação entre educação e assiduidade existente entre as denominações não-pentecostais.

Antes de examinarmos a orientação ideológica, analisemos o grau de sofisticação política dos diferentes grupos religiosos na seção seguinte.



Sofisticação política


Quanto maior a exposição de um indivíduo aos meios de comunicação de massa, maior tende a ser o seu grau de sofisticação política: ou seja, mais elevado tende a ser seu nível de conhecimento a respeito dos principais eventos, temáticas, símbolos e clivagens da esfera política.

De acordo com alguns autores, o papel dos meios de comunicação de massa em muito transcende essa função meramente informativa. Para Tocqueville (1977), muito mais do que informar sobre opções disponíveis, a principal virtude da liberdade de imprensa para os cidadãos numa democracia constitui-se no seu poder fiscalizatório: na capacidade que ela confere aos indivíduos não só de conhecer os eventos políticos, mas de poder utilizar esse conhecimento para eventualmente punir os governantes e a classe política21. Segundo Lipset (1967, p. 89), a imprensa tem um papel importante na socialização democrática dos indivíduos, na medida em que ao aumentar a exposição dos indivíduos às "pressões cruzadas" – à propaganda política de grupos de perfil programático ou ideológico bastante diferenciados – acentua as atitudes de tolerância à diversidade e diminui a probabilidade de aceitação de ideologias extremistas.

Neste trabalho, vamos nos ater ao papel meramente informativo da imprensa. Qual é o grau de exposição à imprensa dos diferentes grupos religiosos que compõem o eleitorado brasileiro? Eventuais diferenças no grau de exposição produzem níveis de sofisticação política diferenciados?

No que se refere aos jornais, os praticantes do kardecismo são os mais expostos (Gráfico 6)22. Cerca de 22.2% deles lêem jornais todos os dias e 52.4% deles os lêem uma ou algumas vezes por semana. Católicos e evangélicos têm perfis praticamente idênticos e são os únicos nos quais mais da metade do grupo não está exposta à imprensa escrita: 51.9% de cada segmento não possuem o hábito de ler jornal. A exposição desses grupos é consideravelmente limitada: apenas três em cada dez católicos ou evangélicos lêem jornais uma ou algumas vezes por semana. É desnecessário mencionar a associação entre a freqüência de leitura de jornal e grau de instrução23.

O perfil de católicos e evangélicos também não se distingue no que se trata da exposição às notícias divulgadas em telejornais nacionais. Cerca de metade do público dessas duas religiões assistiu aos programas nacionais de notícias na semana da pesquisa. Esse percentual contrasta claramente com o perfil dos kardecistas – entre eles, apenas 19.3% não assistiram telejornais nacionais na semana da pesquisa.

É interessante observar que, entre os kardecistas, 79.4% estão de alguma maneira expostos à imprensa escrita e cerca de 80.6% assistem o noticiário nacional na televisão. Entre os católicos, 51.9% não lêem jornais e 50.1% não estiveram expostos às notícias veiculadas nos telejornais nacionais na semana da pesquisa. Entre os evangélicos, esses mesmos indicadores também têm números bastante próximos entre si: 51.9% e 51.0%, respectivamente. O mesmo se aplica às pessoas sem filiação religiosa: 41.9% não lêem jornal e 43.8% não assistiram telejornais nacionais. Esses números implicam qualquer coincidência entre os dois públicos? Ou o segmento que acompanha a imprensa escrita é totalmente diferente do público exposto aos telejornais?

No interior do grupo evangélico, apenas 29.8% estão expostos a ambas as mídias (Tabela VIII). Entre os católicos, esse número é levemente mais alto: 30.9%. Cerca de 40.5% das pessoas sem religião estão expostas simultaneamente aos jornais e às notícias veiculadas na televisão. O dado mais importante a esse respeito é o fato de que cerca de 32% de evangélicos e de católicos não estão expostos a nenhum dos dois tipos de imprensa. Isso significa que suas opiniões, atitudes e concepções a respeito da esfera política são alimentadas e formuladas mediante o contato com outras fontes: seja a família, os amigos, colegas de trabalho, vizinhos, autoridades religiosas.











Como esses graus de exposição aos meios de comunicação de massa moldam a cognição de cada um desses grupos religiosos? Selecionamos duas temáticas relacionadas à política partidária e verificamos o grau de conhecimento dos diferentes públicos religiosos a respeito delas. A primeira temática solicita aos entrevistados que respondam qual partido político tem o número 13 como símbolo de sua legenda. A segunda indaga acerca de qual é o partido do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso.

Em relação ao grau de conhecimento do partido político cujo número na justiça eleitoral é 13 – o Partido dos Trabalhadores –, os kardecistas conformam o grupo com a maior proporção de acertos (80.9%), seguidos do grupo sem religião (80.6%) e dos adeptos das religiões afro-brasileiras (72.7%) (Gráfico 724). O perfil de evangélicos e católicos a esse respeito é praticamente idêntico. A porcentagem de acerto entre os evangélicos (66.4%), no entanto, é ligeiramente menor do que a dos católicos (66.9%). Entre os evangélicos também se encontra a maior proporção dos que não souberam ou não lembraram a resposta correta.

A indagação a respeito do partido do ex-Presidente Cardoso apresentou um nível maior de dificuldade para todos os segmentos (Gráfico 825). Cerca de 47.6% dos kardecistas responderam corretamente essa pergunta – em contraste com os 80.9% que deram uma resposta correta para a questão anterior. Entre todos os grupos, encontra-se entre os evangélicos a maior porcentagem dos que não sabiam ou não se lembraram que o PSDB era a resposta correta. Os evangélicos, além disso, obtiveram a segunda pior proporção de acerto – só superior a dos adeptos do candomblé e umbanda.

Uma vez mais, o perfil de evangélicos e católicos guarda significativas semelhanças. A porcentagem de acerto entre os católicos foi de 35.3%; entre os evangélicos, 34.6%. Os segundos erraram menos que os primeiros. A proporção dos que não souberam ou não se lembraram entre os católicos, no entanto, é ligeiramente inferior (41.9%) do que a dos evangélicos (46.2%).

No interior do segmento evangélico, os membros das igrejas não-pentecostais têm um desempenho superior aos das pentecostais (Tabela 9). Enquanto entre os primeiros, a porcentagem média de acerto foi de 50.7%, entre os evangélicos pentecostais foi de apenas 28.5%. Os membros da Congregação Cristã no Brasil – que, entre os pentecostais, têm nos seus quadros a maior proporção de pessoas com nível superior completo – foram os que mais acertaram (31.6%). A maioria dos fiéis das denominações pentecostais examinadas simplesmente ou desconhecia ou não recordou a resposta correta.






A exposição a pelo menos um dos meios de comunicação de massa aumenta significativamente o nível de sofisticação política, conforme pode ser observado na Tabela 10. Na primeira questão, a porcentagem média de acerto (computando evangélicos e católicos conjuntamente) é 31.8% maior entre os que tiveram contato com a imprensa escrita ou televisada do que os que não tiveram nenhuma exposição. No caso da segunda questão que, como vimos anteriormente, introduziu um nível maior de dificuldade, a exposição à imprensa aumenta em cerca de 96.6% a porcentagem de respostas corretas. É interessante notar ainda que, em todos os segmentos, a leitura de jornais traz mais ganhos de acuidade do que o acompanhamento de notícias pelos telejornais nacionais.






Evangélicos novamente têm uma performance semelhante à dos católicos. Essa similaridade se deve à ação de fatores mencionados anteriormente – renda e educação. Conforme vimos na terceira seção, essas variáveis não distinguem claramente os evangélicos dos demais grupos. Pelo contrário, mostramos como seu perfil – no que se refere a esses dois quesitos – é praticamente idêntico ao dos católicos. O nível de exposição às autoridades religiosas (medido pela assiduidade do fiel ao seu culto), no entanto, constitui-se numa característica que singulariza o segmento evangélico. Mostramos como cerca de 82.6% dos membros das diversas denominações evangélicas participam de seus cultos uma ou mais vezes por semana.

Salientamos anteriormente que a exposição à imprensa aumenta significativamente os níveis de sofisticação política. Pontuamos, entretanto, que cerca de 32% dos evangélicos não estão expostos nem aos jornais e nem aos telejornais nacionais. Isso significa que há, entre os evangélicos, devido à combinação de alta exposição às autoridades religiosas e baixa exposição aos veículos da imprensa, um espaço importante para que os inputs eventualmente recebidos na esfera religiosa sejam transformados em guias para formação de opiniões e crenças e para o comportamento eleitoral e político concreto.

Antes de examinarmos a eventual influência que as autoridades religiosas possam ter no comportamento político e eleitoral dos evangélicos, vamos tentar mapear seu posicionamento do espectro ideológico brasileiro.


(Continua)
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