"Relações de Gênero e Religiosidade no cotidiano escolar: conflitos e repercussões das mulheres da Congregação Cristã no Brasil"

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"Relações de Gênero e Religiosidade no cotidiano escolar: conflitos e repercussões das mulheres da Congregação Cristã no Brasil"

Mensagem  "Ekklésia Christiana" em Qui Dez 08, 2011 9:22 am




RELAÇÕES DE GÊNERO E RELIGIOSIDADE NO COTIDIANO ESCOLAR:
CONFLITOS E REPERCUSSÕES DAS MULHERES DA CONGREGAÇÃO CRISTÃ NO BRASIL



Profa.Dra.Arilda Ines Miranda Ribeiro
FCT/UNESP/Presidente Prudente,SP


(Ms Iranilde Ferreira Miguel
ISE-Instituto Superior de Ensino de Junqueirópolis, SP)



As questões que pretendemos apresentar nesse texto, fruto de resultados obtidos na orientação da Dissertação de Mestrado sobre o tema, dizem respeito às tensões vivenciadas pelas professoras da Congregação Cristã no Brasil no interior da escola. (MIGUEL, 2008).

Uma observação mais atenta na história da condição feminina pentecostal nos mostra que a profissão docente é a que mais atrai as mulheres pertencentes à Igreja da Congregação Crista do Brasil, pois um grande número de mulheres da Congregação Crista no Brasil que trabalha fora do espaço doméstico são professoras. Assim sendo, o imaginário vivido pelas mesmas não se limita apenas ao ambiente da Igreja da Congregação Cristã, na medida em que atuam de forma significativa no espaço escolar e, portanto, na esfera pública.

Acreditamos que uma das razões da escolha da profissão docente pelas mulheres da Congregação Cristã no Brasil está vinculada aos fatores que provocaram a feminização do magistério docente.

A mulher crente, independentemente da função que exerce, é identificada, e em seguida classificada. Ela fará parte da categoria “mulher crente”. Neste sentido Louro (1997) ao tratar da “construção escolar das diferenças” nos diz:



Diferenças, distinções, desigualdades... A escola entende disso. Na verdade, a escola produz isso. [...]. A escola que nos foi legada pela sociedade ocidental moderna começou por separar adultos de crianças, católicos de protestantes. Ela também se fez diferente para os ricos e para os pobres e ela imediatamente separou os meninos das meninas. (LOURO, 1997, p. 57)



Uma pergunta ouvida com freqüência pela professora da Congregação Cristã no Brasil no cotidiano escolar é: “Você crente? De que igreja”, e diante da resposta: “Sim, sou crente da Congregação Cristã no Brasil”, ouve-se sempre “Ah! bem que eu percebi”.

Fica evidente que a “mulher crente” é percebida por ser diferente nos seus usos e costumes. No entanto, por mais que a Congregação Cristã no Brasil dicotomize igreja e mundo, na prática, este distanciamento se torna impossível.

Nesse texto abordamos o comportamento das mulheres da Congregação Cristã no Brasil diante de determinadas situações próprias do ambiente escolar. Temos a destacar que elas se afastam aparentemente das situações conflituosas no que se refere à religiosidade. Isso significa considerar que, por mais que o comportamento seja inexpressivo, ele repercute na fala particularizada das mesmas.

Vejamos o que diz a diretora de uma escola sobre as professoras pentecostais, quando lhe foi perguntado se ela reconhecia de imediato uma professora pentecostal: “As evangélicas são diferentes, nós reconhecemos no traje e no comportamento. Não se envolvem em grupos”, mais adiante ela completa que as assembleianas e as da Congregação Cristã no Brasil, são identificáveis de imediato: “[...] pelo cabelo e pela roupa... e sem maquiagem.”.

Consideramos importante destacar a fala de uma professora entrevistada, que, ao recordar-se de sua infância na escola, nos relata:

Eu estudava numa escola, que no boletim estava escrito: qual é a sua religião? E no espaço estava escrito CRENTE. Ali naquela escola era triste. A gente era uma criança diferente. Usava as roupas de manguinha... sainha.

Outra professora nos narrava, em relação à mudança de estação de tempo que:
A época do frio na escola é muito ruim. Trabalhei com uma professora que todos os dias me perguntava, se eu não estava com frio. E eu respondia: “Não. Não estou com frio. Estou usando meia de lã.”. E era uma meia muito bonita! (risos). Outros colegas também perguntam porque não uso a calça comprida. E dizem: “ah! Mas só em dia de frio. Não é pecado”. Percebo que os alunos ficam reparando, por eu não estar de calças compridas.

Quando questionam se a professora não está com frio, não há preocupação com o bem estar da outra, no sentido de protegê-la do frio, uma vez que a professora já explicara que usava meias de lã que a protegiam do frio. Na verdade o questionamento se refere ao fato de não fazer uso das calças compridas. Usar calças compridas é a regra aceitável estabelecida pela maioria.

Nos dois casos citados acima, ser diferente é estar em situação de desigualdade. Existe uma “marcação simbólica” (LOURO, 2004), “uma cadeia oculta de declarações negativas” (SILVA, 2004) que entristece o sujeito a ponto de gerar a sua exclusão.

Para Silva (2004) identidade e diferença são faces de uma mesma moeda e mantêm uma relação de estreita dependência.

As afirmações sobre diferença também dependem de uma cadeia, em geral oculta, de declarações negativas sobre (outras) identidades. Assim como a identidade depende da diferença,a diferença depende da identidade. Identidade e diferença são, pois, inseparáveis. (SILVA, 2004, p. 75).

Essas professoras convivem com declarações negativas, ocultas e veladas, que a colocam em evidência, tornando-as cada vez mais diferentes.

As relações de gênero no interior da Congregação Cristã no Brasil são ambíguas, pois geram a dominação, mas produzem a identidade e a diferença. Ressaltamos que as relações de dominação estabelecidas nas relações de gênero estão presentes em todas as religiões. Entretanto, no que se refere à Congregação Cristã no Brasil, a religião produz uma diferença que é questionada. Em meio a essa ambigüidade, chamamos a atenção para as representações dessas professoras. Uma das entrevistadas, ao falar do seu relacionamento com os colegas na escola, dizia que se sentia querida entre os colegas e que eles pediam a oração da igreja quando estavam com algum problema e completava:

As pessoas acreditam na gente, no dom da oração que a igreja tem, no poder da oração que existe dentro da nossa igreja.... O pessoal respeita muito a igreja.

Percebemos, nessa fala, um elemento positivo importante: Durkheim (2003), no livro As formas elementares da vida religiosa, escreve sobre as negatividades e positividades da religião.

Esses princípios se reduzem, em geral, a dois.

O primeiro pode ser assim enunciado: o que atinge um objeto atinge também tudo o que mantém com esse objeto uma relação de proximidade ou de solidariedade qualquer. Assim, o que afeta a parte afeta o todo; toda ação exercida sobre um indivíduo transmite-se a seus vizinhos, a seus parentes, a todos os que lhe são solidários por uma razão qualquer. ...Um estado, uma qualidade boa ou má comunicam-se contagiosamente de um sujeito a um outro que mantenha com o primeiro alguma relação. (DURKHEIM, 2003, p. 385).

A experiência religiosa vivida pela professora “[...] transmite-se a seus vizinhos”. A sua fé e todos os benefícios da sua religiosidade acabam transformam-se em prestígio e poder/saber.
Outra professora da Congregação Cristã no Brasil entrevistada, ao perguntarmos sobre os usos e costumes – roupas, cabelo, jóias e pinturas-, revelou que é “crente” desde criança, e não segue a risca todos a regras. Perguntamos se ela se rebela contra as normas estabelecidas e ela nos respondeu:

Não me vejo, e não me sinto uma desobediente. Só “desobedeço” (da uma risadinha) regras que acho que são um exagero. Não vejo nada de mais em usar a calça comprida, mas eu não uso. Se usar é como se eu não fosse mais eu mesma. Sou uma mulher crente da Congregação Cristã no Brasil. Calça comprida só de vez em quando, numa excursão... Se começar a desobedecer às regras, perco as características de crente da Congregação Cristã no Brasil. A impressão que tenho quando coloco calça comprida é que todo mundo está olhando para mim. (Sorri). O pior é que aparece “irmãos” de todos os lados. Além disso, os que não são crentes cobram da gente: você é crente não pode usar calça comprida ....

Perguntamos se nos dias frios ela usa calças compridas para trabalhar e ela nos respondeu prontamente: “jamais, nem pensar”. Insistimos e perguntamos o por quê:

Eu não seria eu mesma. Entende? (sorri). Houve um tempo que eu não usava e sofria com isso. Não por causa do frio. Por que as colegas, os alunos ficavam perguntando... Hoje não sofro mais. Acostumei-me, amadureci e percebi que as normas da igreja fazem parte de minha vida. Vou para a escola de saia. (sorri). Os alunos perguntam se estou com frio, por que não coloco calça pelo menos nos dias de muito frio. Explico que sou da Congregação Cristã no Brasil e não uso calças compridas e pronto, ou desconverso, faço de conta que não entendi.

Tem um detalhe. Agora sou efetiva na escola, só trabalho lá e todos da escola já sabem que sou da Congregação Cristã no Brasil, e perguntam menos. Na minha escola tem um professor da Congregação Cristã no Brasil. Ninguém pergunta nada para ele! (sorri).

Existe uma representação do que é ser uma mulher crente da Congregação Cristã no Brasil: cabelos compridos, saias, ausência de jóias e pinturas. A professora diz: “Os que não são crentes cobram o modelo de mulher crente”. Percebemos que a representação social - dos crentes e dos não crentes – produz sentidos e efeitos sobre o sujeito: a professora. Ao dizer: “[...] a impressão que tenho quando coloco calça comprida é que todo mundo está olhando para mim.”, a professora revela o desconforto, o medo da perda da identidade, da perda do eu: “se usar é como se eu não fosse mais eu mesma”.

Expressões como “as normas da igreja fazem parte de minha vida”, “eu não seria eu mesma” nos revelam e comprovam que identidade, diferença e são inseparáveis. Entretanto, a diferença a faz sofrer, a exclui: “eu não usava e sofria com isso. Não por causa do frio. Porque os colegas e os alunos ficavam perguntando.”.
Diante do exposto, fica evidente que ser professora da Congregação Cristã no Brasil no espaço escolar significa viver conflitos e tensões de uma guerra invisível e quase silenciosa, provocada pela diferença/identidade geradas a partir das relações de gênero estabelecidas no interior da igreja. Louro (1997) nos recomenda:

O olhar precisa esquadrinhar as paredes, percorrer os corredores e salas, deter-se nas pessoas, nos gestos, suas roupas; é preciso perceber os sons, as falas, as sinetas e os silêncios; é necessário sentir os cheiros especiais; as cadências e os ritmos marcando o movimentos de adultos e crianças. Atentas/os aos pequenos indícios, veremos que até mesmo o tempo e o espaço da escola não distribuídos nem usados - portanto, não são concebidos - do mesmo modo por todas as pessoas. (LOURO, 1997, p. 59).

Assim, pois, afirmamos que o espaço da escola é usado e concebido pela professora da Congregação Cristã no Brasil, de acordo com os efeitos sofridos pela produção da diferença / identidade.

Entretanto, essas professoras se movem habilmente, e jogam com maestria os jogos de poder que se instalam no cotidiano escolar. Fingem que não se incomodam, vez ou outra dizem não, usam o poder da fé que possuem em relação aos outros e fazem um trabalho de evangelização com os colegas. As professoras possuem um saber/poder, que transformam em “estratégias um tipo específico de saber, aquele que sustenta e determina o poder de conquistar para si um lugar próprio” (CERTEAU 2003, p.100). Em suma, as professoras servem-se de táticas segundo Certeau:

Chamo de tática a ação calculada que é determinada pela ausência de um próprio.... a tática é movimento “dentro do campo de visão do inimigo”, como dizia Büllow, e no espaço por ele controlado. ... Ela opera golpe por golpe, lance por lance. Aproveita as “ocasiões” e delas depende, sem base para estocar benefícios, aumentar a propriedade e prever saídas. O que ela ganha não se conserva. Este não-lugar lhe permite sem dúvida mobilidade, mas numa docilidade aos azares do tempo, para captar vôo as possibilidades oferecidas por um instante. (CERTEAU, 2003, p. 100).

Neste sentido, vale a pena trabalharmos com uma situação, relatada por uma das professoras entrevistadas. Ela nos contou que um grupo de professores católicos, diante dos problemas de indisciplina dos alunos que enfrentavam na escola , decidiram que antes de iniciar o período de aulas, fariam uma novena. Assim, todos os dias a partir da 6h30min da manhã, todos os professores se reuniam na sala dos professores para rezarem. Disse-nos a professora: “eu sempre inventava uma desculpa, dava um “jeitinho”, e não “aparecia”.
Mas em meio a essa guerra, pouco espaço ou benefício é conquistado, e as professoras da Congregação Cristã no Brasil tendem aceitar a exclusão como algo natural e legítimo, utilizando-se de táticas e aproveitando-se de “ocasiões”, sem compreenderem que a “[...] tática é a arte dos fracos.” (CERTEAU, 2003, p. 101), e bloqueando possibilidades de transformação.

No entanto, as tensões e conflitos presentes no cotidiano escolar, não se resumem às questões que foram expostas. Outras questões que dizem respeito à religiosidade, e que vão além das questões que dizem respeito a gênero, serão discutidas nos próximos itens. Porém, elas atingem com grande intensidade as professoras da Congregação Cristã no Brasil, já que o número delas é muito maior que o número de professores da Congregação Cristã no Brasil. Além disso, entendemos que o cotidiano do espaço escolar, ao lado da Igreja, é um dos elementos que devemos considerar na formação das professoras.

Tensões e conflitos provocados pela religiosidade no cotidiano escolar

Nas palavras de Louro (1997, p. 25), que “[...] as práticas sociais e as instituições fabricam os sujeitos.”. A igreja e a escola, sob o nosso ponto de vista, são lugares concretos, permeados de saberes, que fazem parte do nosso cotidiano e que como fios se cruzam e entrecruzam na formação da professora. Nossas vivências e “experiências ”, acontecem no cotidiano, e são elas que criam e recriam situações de formação.
A escola faz parte da história de vida de cada um, pois é lá que construímos parte de nossa existência: alegrias, namoros e paqueras, desilusões, amizades, confidências... enfim “experiências” que nos atravessaram e nos atravessam, quer como alunos ou como professoras.

Para Viñao Frago (2001), a escola enquanto instituição ocupa um espaço e um lugar e constitui-se numa dimensão espacial da atividade humana, onde inúmeras influências se entrecruzam entre o espaço e o tempo. Diz Vinão Frago:

O território e o lugar são, pois, duas realidades individuais e grupalmente construídas. São, tanto num quanto no outro caso, uma construção social. Resulta disso que o espaço jamais é neutro: em vez disso, ele carrega, em sua configuração como território e lugar, signos, símbolos e vestígios da condição e das relações sociais de e entre aqueles que o habitam. O espaço comunica; mostra, a quem sabe ler, o emprego que o ser humano faz dele mesmo. Um emprego que varia em cada cultura; que é um produto cultural específico, que diz respeito não só as relações interpessoais – distâncias, território pessoal, contatos, comunicação, conflitos de poder-, mas também à liturgia e ritos sociais, à simbologia das disposições dos objetos e dos corpos- localização e posturas-, à sua hierarquia e relações. ( VIÑAO FRAGO, 2001, p. 64.)

É, pois, no lugar/escola, que se estabeleceu o canteiro de obras de construção da cidadania, como possibilidade de um projeto de emancipação humana. No lugar/escola os sujeitos constroem parte de sua existência, através de ações costumeiras, repetidas e diárias, que assumem características de algo mecânico e alienado. Entretanto, o cotidiano não se faz apenas de repetições mecânicas. Tais atos estão permeados de saberes que se constituíram e se legitimaram ao longo de nossa história. Emprestando as palavras de Viñao Frago, estes atos são signos, símbolos e vestígios da condição e das relações sociais estabelecidas entre os sujeitos. Mas o que é o cotidiano? Ele existe? Recorremos à definição de Michel de Certeau:

O cotidiano é aquilo que nos é dado cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia, nos oprime, pois existe uma opressão do presente. Todo dia pela manhã, aquilo que assumimos, ao despertar, é o peso da vida, a dificuldade de viver, ou de viver nesta ou noutra condição, com esta fadiga, com este desejo. O cotidiano é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior. É uma história a meio de nós mesmos, quase em retirada, às vezes velada. ... É um mundo que amamos profundamente, memória olfativa, memória dos lugares da infância, memória do corpo, dos gestos da infância dos prazeres. O que interessa ao historiador do cotidiano é o invisível. (CERTEAU, 1996: 31).

Na definição de cotidiano, Certeau deixa claro que o cotidiano é “memória dos lugares da infância”, e o “peso da vida” presente. Nesta perspectiva, podemos afirmar que o território do cotidiano escolar não é neutro, nem pacífico. Nele estão contidos passado e presente, regras, saberes, relações, palavras, atos, hábitos, símbolos, que dialogam entre si formando uma teia de significações e sentidos. Neste território, os sujeitos se deslocam, chegam à “fronteira”, e é aí, na fronteira com o seu outro, que se esconde o invisível, que acontece o conflito, a guerra. Uma guerra que parece não existir.
Guacira Lopes Louro coloca que:

A fronteira é lugar de relação, região de encontro, cruzamento e confronto. Ela separa e, ao mesmo tempo, põem em contato culturas e grupos. Zona de policiamento é também zona de transgressão e subversão. O ilícito circula ao longo da fronteira. Ali os enfrentamentos costumam ser constantes. (LOURO 2004: 19).

O cotidiano da escola é o lugar das relações, é fronteira, lugar do cruzamento, do ilícito, onde se dão enfrentamentos constantes e cruentos. Nesse espaço plural, híbrido e complexo, construímos os modos de ser e de viver: “aprendemos a aprender”, “aprendemos a fazer”, “aprendemos a conviver” e “aprendemos a ser” (DELORS, 2001, p. 89). Produzimos o que é comum e considerado normal. Mas produzimos o estranho, o diferente e anormal. O exercício da vida cotidiana faz parte da vida em sociedade. Para Agnes Heller (2000, p. 17), “A vida cotidiana é a vida de todo homem. Todos a vivem sem nenhuma exceção”.
É, pois, no cotidiano que se institui a norma monta-se a “maquinaria do poder” Foucault (2000), mas é aí que se estabelece a zona de transgressão das normas, a subversão.

por trás dos bastidores, tecnologias mudas determinam ou curto-circuitam as encenações institucionais. [...] que procedimentos populares (também minúsculos e cotidianos) jogam com os mecanismos da disciplina e não se conformam com ela a não ser para alterá-los; enfim que ‘que maneiras de fazer’ formam a contrapartida, do lado dos consumidores (ou ‘dominados’?), dos processos mudos que organizam a ordenação sócio-política. (CERTEAU, 2003, p. 41)

Na busca do invisível no cotidiano escolar para compreensão como os atores da escola se apropriam deste território e como essas “experiências lhes tocam”, e lhes formam, selecionamos duas situações cotidianas na escola que nos revelam:

1- O espaço escolar não neutro, nem pacífico e nem laico.
2- As relações de gênero, divisões de fé e religiosidade são peças que compõem a “mecânica do poder” (FOUCAULT, 2000) no interior da escola, delimitando regiões de conflitos, tensão e disputas travadas no cotidiano escolar.
3- As táticas e ocasiões usadas pelas professoras nas regiões de conflitos, não conseguem processar mudanças.

As situações abaixo descritas são práticas “cotidianas” na maioria das escolas públicas brasileiras, e foram selecionadas a partir de relatos que ouvimos durante as entrevistas e vivenciamos ao longo de nossa história de vida.
Situação 1-Uma Escola Estadual de ensino fundamental (ciclo II – 5ª a 8ª séries) e ensino médio que desenvolve um projeto sobre espiritualidade. Foram entrevistadas a diretora da escola e uma professora da Congregação Cristã no Brasil, de Geografia que trabalha na unidade escolar.
Elas narraram que, desde o ano de 1999, a escola desenvolve um projeto sobre a espiritualidade. Esse projeto, em linhas gerais, conta com dois momentos: 1- o momento diário- no início de cada período, os alunos fazem a oração do Santo Anjo. Os alunos representantes de classe ficam encarregados de comandar a oração. Existe em cada sala aula uma oração afixada na parede da sala. 2- o momento semestral – um grupo de jovens (alguns são alunos da escola) da Renovação Carismática organiza um evento no pátio da escola, com músicas religiosas e orações. Esse grupo é liderado por uma pessoa da comunidade e ligada à Renovação Carismática.
Fica evidente que o projeto não possui características de um diálogo inter-religioso, mas carrega as marcas do catolicismo. Para a diretora o fato de se exaltar o nome de Deus o legitima no espaço escolar. Ao perguntarmos se a oração diária fazia parte do currículo escolar a diretora respondeu: “Sim, já está no currículo. A oração Santo Anjo do Senhor, e o Pai Nosso é uma oração universal.”.
Ao entrevistarmos uma professora da Congregação Cristã no Brasil, que trabalha nessa escola, perguntamos sobre o projeto da espiritualidade desenvolvido pela escola, e ela nos disse:
No dia em que houve o evento religioso aqui na escola, foi um dia difícil com os alunos. Houve muita confusão. Eu não participei do evento. Enquanto as pessoas cantavam, fiquei afastada. Não atendi ao chamado. ... Eu fico clamando a Deus. Disfarço, venho tomar água. [...]. Essa parte de religiosidade dentro da escola, isso é triste para a gente que é evangélica da Congregação Cristã no Brasil. Por que a nossa igreja não se mistura em nada.[...]. Isso mexe comigo. É triste. Ai... É triste.

Percebemos também que não há por parte da professora uma disposição em aceitar, ou de até mesmo estabelecer o diálogo inter-religioso. Teixeira aponta o diálogo inter-religioso como uma possibilidade de enriquecimento recíproco e desbloqueio de mentalidades.

Para os que acreditam no diálogo, as distinções religiosas não significam,
Necessariamente, uma ameaça, mas uma possibilidade plausível de enriquecimento recíproco, se houver um desbloqueio de mentalidades e disponibilidade para a escuta deste outro universo. A abertura ao outro e sua derradeira compreensão exige mais que boa vontade, implica um ato de despojamento: “ver o ‘outro’ não como aliud, mas como alter ; como a ‘outra parte’, a altera pars de nossa própria pessoa”. (TEIXEIRA, 2006, p.30).

Perguntamos à professora se ela não pensa em protestar e questionar essas práticas, e ela responde: “Não, não. Eu só comento nos bastidores, com quem eu confio”.
Situação 2- Uma Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI), onde trabalham três professoras da Congregação Cristã no Brasil.

Sou professora na EMEI. Desenvolvemos projetos que enriquecem muito as datas comemorativas. Quando chega a época das Festas Juninas, sinto-me insegura em relação ao desenvolvimento desse projeto, pois a festa ganha um caráter mais religioso do que de resgate cultural, e no nosso contexto escolar há diversidade de credos religiosos tanto entre alunos como professores. A festa é feita no ginásio de esportes da cidade com a participação de todas as escolas e entidades. Nas reuniões feitas para a organização da festa, participam os diretores de todas as escolas, das creches e de outras entidades. Todos os anos, a festa é totalmente religiosa, dedicado a Santos da Igreja Católica. Sinto-me totalmente constrangida em expor meus valores religiosos e acabo aceitando coisas que ferem meus valores e conceitos religiosos. Quando argumentamos ou tentamos expor nosso ponto de vista, recebemos como resposta que a festa é folclórica e que não podemos ir contra a maioria. Muitas vezes sou procurada por pais e professores não católicos (na maioria das vezes evangélicos, que só se manifestam porque sabem que sou evangélica), que pedem para serem dispensados das atividades e comunicando que suas crianças não participarão da festa. Do outro lado, as crianças ficam tristes por não poderem participar. Percebemos que as crianças não sabem como lidar com essa situação sentindo-se excluídos. Sinto-me angustiada e muitas vezes excluída também.

As falas acima citadas nos revelam as “múltiplas relações de poder” (FOUCAULT , 2000), e pontos de conflitos no cotidiano escolar. Arriscamo-nos, a destacar algumas considerações que julgamos ser importante:
Em relação à situação 2:

1- O poder hegemônico do grupo católico, que, servindo-se de uma estratégia , cria um dispositivo de proteção contra a religiosidade do outro e trabalha no nível do imaginário social, na tentativa de manter a ordem estabelecida ao longo da história, e institui na escola, uma festa católica. A festa faz parte do Projeto Pedagógico das Escolas do município, está prevista nos calendários escolares e conseqüentemente faz parte do currículo. A religiosidade tem espaço garantido no currículo utilizando-se do argumento de que uma cidade inteira espera a festa.
2- O poder dos organizadores da festa, representantes oficiais da educação na cidade, que oficializam e legitimam a festa.
3- O poder da professora ao negociar com pais.
4- A professora tenta argumentar, mas a sua “ausência de poder” (CERTEAU, 2003, p. 1001), a imobiliza.

Chamamos atenção para o fato de que nas duas situações os sentimentos de tristeza e angústia estão presentes em professoras e alunos, e as outras religiões não são levadas em conta, porém a minoria diz não, e nega-se a participar, amparada pelo poder de um direito garantido em lei, “liberdade de culto e crença”, e de outros dispositivos legais.
Os símbolos católicos ainda se fazem presentes nas escolas públicas brasileiras demarcando o território escolar e constituindo-se em discursos que conservam embutidos efeitos específicos de poder. São signos que marcam o cotidiano escolar como território de uma religiosidade superior: o catolicismo.

É por esse simples detalhe e por outros mais sutis e dissimulados que parece aconselhável constar mitos, ritos e seus símbolos na escola. Símbolos esses, evidentemente, de uma espiritualidade caudatária da cultura cristã católica romana. Logo, ainda que o ensino religioso não se formalize em currículos escolares, os mitos, os ritos e seus símbolos católico-romanos estão presentes nas escolas que fecham suas salas todo dia doze de outubro. (LIMA JR, José. 2006, p. 176).

Quem de nós, nunca viu na entrada de qualquer escola, por esse Brasil a fora, uma imagem de Jesus Cristo crucificado? Ou, um quadro da Sagrada Família? Ou, uma imagem de Nossa Senhora Aparecida? Ou ainda, a imagem da Virgem Maria? Ou ainda, qual escola não tem em seu calendário escolar uma festa religiosa católica, principalmente as festas juninas, que deveriam ser consideradas folclóricas? Para os pentecostais, as imagens de santos, a adoração e / ou a reverência às imagens, consideradas sagradas pelo catolicismo, ou a participação em festas que reverenciam santos, são atos de idolatria, e, portanto, um “pecado”.
Entendemos que a presença destes símbolos católicos no espaço escolar, são engrenagens do poder exercido pelo catolicismo.

[...] as relações hierárquicas da sociedade são apreendidas mediante cotidianos ritualizados, fazendo “crer” que elas são naturais. É contando com o Imaginário Social que as relações de poder estabelecidas protegem sua legitimidade contra aqueles que a atacam. Visando garantir um lugar privilegiado no domínio dos imaginários sociais, o grupo hegemônico inventa complexos e variados dispositivos de proteção. Isso vai desde produções legais, coercitivas, às formas sofísticas de formação de opinião. (Ferreira e Eizirik, 1994: p. 7).

Consideramos importante registrar que o argumento do direito da maioria católica tem raízes históricas. Os constituintes de 1933 valiam-se dele para justificar as “emendas religiosas” e, em especial, a favor do Ensino Religioso. Dentre esses argumentos podemos destacar:

-o laicismo é “planta exótica” no Brasil e não tem raízes históricas e nem nacionais.
- Em nome da liberdade de todos, a minoria não – católica, não pode impor sua irreligiosidade à maioria que é católica. (CURY. 1945: 116).

Um olhar mais atento às questões de religiosidade na escola nos mostra que pouca coisa mudou nesses anos todos, e as tensões, conflitos, preconceitos e discriminação ainda se fazem presentes no ambiente escolar.
Devemos atentar ainda para o fato de que a subjetividade é uma das dimensões constitutivas da educação e dos sujeitos, e no campo da subjetividade resta às professoras da Congregação Cristã no Brasil o mal-estar, a angústia e a tristeza. Neste contexto, a professora recolhe-se para um “outro mundo”, abdica do seu lugar no espaço escola e “clama a Deus”, e busca na fé, na dimensão do divino, a solução para um problema “mundano”. Consideramos oportuno relembrar o que já dissemos no item A cidadania do ponto de vista dos pentecostais da Congregação Cristã no Brasil: o isolamento dos pentecostais nas questões políticas no início da formação do movimento no Brasil gerou uma passividade em relação às mudanças da sociedade. No imaginário pentecostal, existe uma Pátria perfeita nos céus, onde não é preciso rebelar-se. Lá não há tristezas nem angústias: “[...] deste mundo nada espero, minha Pátria está nos céus” Hino 213 .

Em meio às “táticas” e conflitos, acordos e transgressões, as professoras formam e são formadas, na medida em que nas experiências diárias vão construindo formas de praticarem a docência.

Ora, um professor de profissão não é somente alguém que aplica conhecimentos produzidos por outros, não somente um agente determinado por mecanismos sociais: é um ator no sentido forte do termo, isto é, um sujeito que assume sua prática a partir de significados que ele mesmo lhe dá, um sujeito que possui conhecimentos e um saber- fazer provenientes de sua própria atividade e a partir dos quais ele a estrutura e a orienta. (TARDIF, 2002, p.230).

Neste sentido, é possível afirmar que as professoras da Congregação Cristã no Brasil organizam suas práticas a partir de suas vivências religiosas e escolares. Seus saberes estão fortemente enraizados em suas histórias de vida, de sua afetividade e de seus valores. Neste ponto, abrimos um parêntese e levantamos uma questão que diz respeito à seleção de conteúdos trabalhados em sala de aula. Conteúdos que não estão de acordo com os valores religiosos das professoras são ignorados, ou trabalhados de forma superficial. Relato aqui a fala de uma professora sobre a questão da homossexualidade. Perguntamos como ela encara ou trabalha essa questão em sala de aula. Ela nos respondeu:

Respeito e acho que é a cultura de cada um que determina sua marginalização ou não. Como sou da Congregação Cristã no Brasil e a igreja condena essa prática procuro excluir esse tema, porém não excluo o homossexual, aliás tenho amigo que é professor e o aceito com naturalidade. A intimidade e a opção sexual dele não me importam.

A exclusão de temas ou conteúdos pode comprometer a construção da cidadania. Percebemos ao longo da pesquisa que outros conteúdos não são discutidos na escola.

Posto isso, é preciso atentar para o fato que os saberes e as práticas das professoras da Congregação Cristã no Brasil não podem ser compreendidos fora do contexto de suas representações e de seu imaginário, formados a partir de um discurso religioso carregado peculiaridades:

Nessa perspectiva, o saber dos professores parece estar assentado em transações constantes entre o que eles são (incluindo as emoções, a cognição, as expectativas, a história pessoal deles, etc.) e o que fazem. O ser e o agir, ou melhor, o que Eu sou e o que Eu faço ao ensinar, devem ser vistos aqui como dois pólos separados, mas como resultados dinâmicos das próprias transações inseridas no processo de trabalho escolar. (TARDIF, 2002, p. 16)

Assim, perguntamos: o que isso significa? Devemos “capacitar” as professoras a fim de que abandonem suas convicções e valores? As representações sociais e o imaginário das professoras da Congregação Cristã no Brasil devem ser desconsiderados no interior da escola?

Significa que é preciso olhar com mais atenção às questões que envolvem as relações de gênero e religiosidade no cotidiano escolar; que as questões concernentes à religiosidade na escola ultrapassam a problemática que envolve o ensino religioso nas escolas públicas; que essas tensões e conflitos geram “as condições regressivas que conduzem, desde muito cedo, nossas crianças a se identificarem com práticas preconceituosas” (SILVA, 2005, p. 4).

Diante disso, nossa proposta a seguir é a de discutir de que maneira a formação dos professores pode contribuir para o desmantelamento de práticas consideradas “regressivas imanentes ao processo civilizatório” (SILVA, 2005, p. 4), e que impedem a realização de um projeto educacional que tem como objetivo a emancipação humana.

Algumas considerações sobre questões de gênero/religiosidade e a formação das professoras

Iniciamos esse texto com o propósito de provocar reflexões sobre a religiosidade e as relações de gênero no contexto escolar, partindo do pressuposto de que a escola tem como objetivo a construção da cidadania e a emancipação humana. Religiões, religiosidades e experiências religiosas permeiam a vida cotidiana, constroem identidades e ultrapassam os domínios das instituições. Assim, desconsiderar esses elementos na construção da cidadania é entender a cidadania como um conteúdo pronto e acabado, que encerra direitos e deveres absolutos e imutáveis.

Para nós, a cidadania é um elemento discursivo e cambiante, que assume as mais variadas formas, dentro de um determinado contexto econômico, político e social. Por isso, os desafios de uma educação para a cidadania não é tarefa fácil. Os interesses e as relações humanas envolvidas nessa questão formam uma complexa malha permeada de conflitos e tensões. Dentre essas tensões nos detivemos nas questões que envolvem as relações de gênero e religiosidade.

Percebemos que educar para a cidadania pressupõe reconhecer o lugar do outro em relação à sua fé e às suas crenças, assegurando que todos possam ser ouvidos, respeitados e compreendidos.

Nesse ponto, chamamos atenção para o fato de que ao longo desse textoo percebemos que as relações de gênero e a religiosidade, não são discutidas como elementos constituintes da cidadania. Ficamos surpresos ao constatar que essas questões são encaradas como prontas e acabadas: a religião é assunto de vida ou de morte e não pode ser discutida no ambiente escolar, por que se constitui em uma questão de foro íntimo, subjetivo e particular; e as relações de gênero se resumem em pequenas discussões sobre as conquistas femininas nos últimos tempos.

Cumpre-nos esclarecer que nossa pretensão não é formular receitas de uma educação para a cidadania. Nosso objetivo é contribuir com novos questionamentos, situando as questões de gênero, como conseqüência da religiosidade e os desdobramentos dessas relações na construção da cidadania, já que para nós relações de gênero e religião é um assunto decisivo na vida de milhares de pessoas.

Nesse sentido, o projeto educacional brasileiro, apesar de afinado com as propostas neoliberais, construiu um discurso que dá ênfase às palavras cidadania e emancipação humana. Entretanto, não basta construir um discurso e empunhar bandeiras. Carecemos de questionamentos contínuos das práticas já legitimadas no interior da escola, e na sociedade, que permitam o repensar das relações sociais.

Cabe à escola a tarefa da descontrução de mecanismos de poder que atuam contra os indivíduos e não a favor deles. Nesse ponto abrimos um parêntese e chamamos a atenção para a necessidade de descontrução da hierarquia estabelecidas nas relações de gênero no interior da igreja. Mas alertamos para o fato de que a igreja não fará novas leituras das relações gênero, tampouco abrirá espaços para diálogos internos que contemplem essa questão. A descontrução desses mecanismos de poder no interior das igrejas deve ser gerado fora delas, uma vez que a religião é um fenômeno social, cultural e histórico, sujeito a mudanças. Para nós, a escola é o espaço privilegiado para o estabelecimento de uma educação voltada para a alteridade. Nas palavras de Teixeira (2006, p. 35).

O diálogo inter- religioso encontra uma aplicação singular no campo da educação, particularmente da educação religiosa. Trata-se de um tema que prioriza a opção fundamental em favor da alteridade. [...]. O desafio de uma educação que respeite profundamente as convicções religiosas de seus educandos. Trata-se da defesa e afirmação da liberdade religiosa. (TEIXEIRA, 2006, p. 35).

Nesse sentido, o espaço escolar deve ser palco da diversidade, da laicidade e da tolerância, da abertura, do acolhimento, do reconhecimento da diferença/identidade do outro.

Nesse sentido, concordamos com Delors (2001, p. 152): “A importância do papel do professor enquanto agente de mudança, favorecendo a compreensão mútua e a tolerância, nunca foi tão patente como hoje em dia”.
A desilusão com o progresso, o aumento do desemprego e da pobreza e o flagrante aumento dos excluídos da cidadania nos alertam para o que Adorno (2003) define como “anticivilizatório”, ou barbárie. Adorno nos leva a refletir sobre a frieza, a brutalidade e a dureza produzidas pelo processo civilizatório, alertando-nos para a necessidade de uma educação contra a frieza, e sentencia: “A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica” (ADORNO, 2003, p. 121).

Nessa perspectiva, chamamos a atenção para o “clima de incivilidade reinante nos espaços escolares” (SILVA, 2005, p. 5), considerando que os conflitos e tensões presentes no cotidiano escolar, resultantes das relações de gênero e religiosidade, são práticas que excluem, desqualificam e portanto contribuem para desumanização.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Procuramos ao longo desse texto mostrar que as questões de gênero e religiosidade provocam tensões e conflitos no espaço escolar que podem comprometer a construção da cidadania e da emancipação humana. Trabalhamos no sentido de desvelar relações sociais camufladas, por isso optamos pelo trabalho com os autores como Michel Foucault, Michel de Certeau e Guacira Lopes Louro, pois acreditamos que tais autores nos forneceriam uma fundamentação teórica condizente com nossos questionamentos. Ainda nesse capítulo, ousamos traçar algumas considerações sobre a formação das (os) professoras (es) numa perspectiva do conceito de professor reflexivo.

Chegamos ao final desse texto com questões que ainda carecem de ser respondidas, e que consideramos complexas. - Se a escola pública brasileira ainda não é laica nas suas práticas escolares cotidianas, quais caminhos terão que ser percorridos, para que a laicidade ocorra de fato? - Qual é o espaço ocupado pelos credos, vistos por católicos e crentes das mais variadas denominações religiosas, como menores no cotidiano escolar? - Quais os efeitos da camuflagem das relações conflituosas, originadas pelas religiosidades diferentes? - Como introduzir a discussão sobre a religiosidade no espaço escolar? Devemos propor uma mudança no currículo? Criar novas disciplinas?

Encerramos concluindo que, embora o discurso circulante afirme que “religião não se discute”, percebemos que se faz necessário incluir na pauta das discussões as questões referentes à identidade/diferença, produzidas pelas religiões. Sabemos, entretanto, que essa é uma tarefa complexa, já que não se constitui numa questão gerada no interior de movimentos sociais, e nem possui características reivindicatórias de nenhum grupo social. As professoras da Congregação Cristã no Brasil não se organizarão para exigir “respeito” à sua identidade, ou à sua diferença. Tampouco deixarão seus usos e costumes para conquistar uma suposta igualdade.

Trata-se de exercitar um olhar diferenciado sobre essas questões. Porém, não podemos nos esquecer que as regras de comportamento e a imposição de determinados usos e costumes são mecanismos de dominação que perpetuam a desigualdade instituída baseada na hierarquia entre os gêneros. Exercitar o olhar não significa apenas ver e apreciar como quando olhamos uma planta exótica. Ver é reconhecer as pequenas partes da realidade inteira e complexa. Ver é encarar e desvendar imagens que nos recusamos a olhar. A proposta de um novo olhar pressupõe questionamentos a respeito das relações de gênero e que sejam capazes de afetar os alicerces dos conceitos dominantes que têm como fundamento a relação binária macho/fêmea, relação essa que ainda permanece sustentada pelas religiões.

Negar a relevância dessas questões é como não perceber o antolho e virar o rosto para não se incomodar com o que se vê.

Talvez de início, nos recusemos a lançar um longo e profundo olhar. Mas acreditamos que um olhar penetrante e significativo pode nascer de uma esguelha rápida e descomprometida.

Esse texto aqui se encerra, mas que não se conclui em função da subjetividade e essência das questões. É uma forma de convidar os leitores a, seguindo essa esguelha, aprofundar o olhar, que se desdobrará em outros trabalhos.


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