"Congregação Cristã no Brasil no século XXI: uma denominação pentecostal invisível"

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"Congregação Cristã no Brasil no século XXI: uma denominação pentecostal invisível"

Mensagem  "Ekklésia Christiana" em Qui Dez 08, 2011 8:09 am


CONGREGAÇÃO CRISTÃ NO BRASIL NO SÉCULO XXI:
UMA DENOMINAÇÃO PENTECOSTAL INVISÍVEL


Gloecir Bianco



(apresentado por ocasião do 2º Congresso da ANPTECRE* - Fenomenologia e Hermenêutica do Religioso - Belo Horizonte - 24 e 27 de agosto/2009)



Resumo: Este artigo pretende atualizar informações e despertar a comunidade acadêmica para uma denominação que, em pleno século XXI, insiste em manter uma postura de invisibilidade. Reconhecida como a primeira denominação pentecostal brasileira, cuja origem remonta a 1910 na cidade de Santo Antonio da Platina, norte pioneiro do estado do Paraná, a Congregação Cristã no Brasil manteve durante este primeiro século de existência uma postura extremamente conservadora. Enquanto todas as denominações pentecostais brasileiras apostam todas as fichas na exposição à mídia como fator crucial para a sobrevivência como organização, a CCB parece investir no contrário. Não possui qualquer participação na mídia escrita, falada ou televisiva. A CCB adentra o Século XXI, praticamente invisível num cenário religioso brasileiro completamente dominado pelas igrejas midiáticas.


Introdução


O ano de 1910 é marcado como o ano da chegada do movimento pentecostal no Brasil. Este movimento, ao contrário do que costumeiramente se registra, não surgiu de uma hora para outra e em um lugar específico, foi sim o resultado de um longo processo de mutação do campo religioso norte-americano (Campos, 2005: 112 e 113)[1]. A primeira denominação pentecostal brasileira, resultado deste movimento norte-americano foi a Igreja Congregação Cristã no Brasil. Iniciada pelo italiano Louis Francescon que, partindo da cidade de Chicago, do meio de imigrantes italianos e recém fulminado pelo movimento, desembarcou no Brasil com o objetivo de trazer a “boa nova” para os italianos residentes no país. A primeira incursão do movimento se deu no interior do estado do Paraná e sua organização como igreja, se deu no bairro do Brás em São Paulo, no meio de uma legião de imigrantes italianos.

Esse artigo apresenta aspectos relevantes da Igreja Congregação Cristã no Brasil como denominação pentecostal. Sua trajetória durante o século XX e a entrada no século XXI. A manutenção dos costumes, hábitos, regras etc. durante todo o decorrer do século XX nos remete a conclusões sem precedentes no campo religioso brasileiro. A Congregação Cristã não mostra sua cara, não se apresenta fora das paredes de seus templos, abomina qualquer forma de exposição na mídia, quer seja televisiva, radiofônica ou internet. Sua música é tradicionalíssima, orquestrada e deve ser apresentada exclusivamente nas celebrações. Assim, a Congregação Cristã no Brasil se apresenta neste início de século XXI como uma denominação praticamente invisível a observadores menos atentos. Por sua vez, no meio acadêmico, são raros os trabalhos que tratam a Congregação Cristã com a profundidade que ela merece[2], afinal ela é a precursora de um movimento que completa 100 anos no próximo ano de 1910 (Campos, 2005: 113).


1. A Origem Pentecostal no Brasil


No dia 15 de setembro de 1907 o movimento pentecostal começou entre os italianos em Chicago (EUA). As celebrações eram realizadas na língua italiana e esse movimento (pentecostalismo) foi o estopim de movimentos missionários sem precedentes, tanto para o interior dos Estados Unidos da América quanto para outros países do mundo (Campos 2005: 113). Um desses alvos missionários seria então os italianos residentes na América Latina, onde Louis Francescon, em companhia de Lúcia Menna e Giácomo Lombardi, desembarcou, inicialmente na Argentina (Buenos Aires) e, posteriormente no Brasil (São Paulo). A partir desse ponto, começa a história conhecida da Igreja Congregação Cristã no Brasil, Louis Francescon fica conhecendo um italiano, residente no interior do estado do Paraná[3] chamado Vicenzo Pievani, a quem expõe sua fé, ali mesmo na Estação da Luz em São Paulo. Em poucos dias, no entanto, Vicenzo retorna para seu povoado.

Sempre atribuindo seus movimentos ao Espírito Santo, Francescon é movido a viajar a Santo Antônio da Platina, um Patrimônio[4] distante aproximadamente 600 quilômetros de São Paulo. Sem ter qualquer endereço, sem falar uma palavra de português, sem dinheiro e sofrendo dores, provavelmente uma crise de rins, embarcou em um trem da, então, estrada de ferro Sorocabana que partia às 5:30 horas, chegando à estação de Salto Grande às 23:00 horas. Dessa estação, ainda distante aproximadamente 60 quilômetros do povoado de Santo Antonio da Platina, seriam percorridos no lombo de um cavalo, guiado por um indígena da região. De acordo com a narrativa do próprio Francescon:

“Parti de São Paulo às 5:30 horas com uma terrível dor lombar que me impediu tomar alimento durante todo aquele dia. Che***** a Salto Grande às 23 horas e nesse lugar o Senhor me disse ter preparado tudo para mim, a fim de cumprir minha missão; e assim aconteceu, porém, faltavam fazer cerca de 70 quilômetros a cavalo, atravessando matas virgens infestadas de jaguaras e outras feras existentes no lugar. Pela Graça de Deus, fiz este resto de viagem com um guia indígena, chegando a Santo Antônio da Platina em 20 de abril”.[5]

Após narrar o trajeto cercado de sofrimento, Francescon descreve sua entrada pela rua principal do povoado de Santo Antônio da Platina, no dia 20 de abril de 1910. Andando sem direção definida, ao passar em frente a uma casa[6], é chamado por uma mulher que se encontrava na janela, é recebido por ela que se identifica como a esposa de Vicenzo Pievani. A semente do pentecostalismo havia começado a germinar. Vicenzo que já ouvira sem rejeição a pregação do Evangelho em São Paulo, por ocasião do primeiro encontro, agora, com a esposa brasileira, abria as portas de sua casa para reunir e iniciar, o que testemunhas do local chamam de “a primeira irmandade” da Igreja Congregação Cristã no Brasil.

Felício Mascaro[7], outro italiano também com esposa brasileira e mais algumas famílias do local, completaram 11 pessoas que ouviram atentamente, durante aproximadamente 45 dias[8], os ensinamentos daquele italiano, uma pessoa de hábitos extremamente simples e com enorme autoridade e conhecimento na mensagem que pregava. Ele os conquistou de tal forma que: “Foram batizados na água 11 pessoas e confirmados com sinais do Altíssimo. Estas foram as primícias da grande obra de Deus naquele país”.[9]


2. Retornando para São Paulo


De volta a São Paulo, o que se deu (provavelmente) no dia 21 de junho de 1910, um dia após sua partida de Santo Antônio da Platina, desembarcou exatamente na estação de onde partiu no dia 18 de abril. A partir dos episódios vividos no interior do Paraná, nos parece que Francescon recebeu uma verdadeira injeção de ânimo. É assim que ele narra esses acontecimentos:

“Parti de Santo Antonio da Platina em 20 de junho, com destino a São Paulo. Apenas chegando àquela Capital, o Senhor permitiu abrir uma porta, resultando que cerca de 20 almas aceitaram a fé e quase todas provaram a Divina virtude. Uma parte eram Presbiterianos e alguns Batistas e Metodistas e alguns também Católicos Romanos. Alguns foram curados e outros selados com o Bendito Dom do Espírito Santo”.[10]

Essa porta que “o Senhor permitiu abrir”, oficialmente representa o início da Congregação Cristã no meio de um bairro formado basicamente por imigrantes italianos em São Paulo. Yuasa, ao escrever sobre esse início, faz a seguinte descrição:

“Returning to São Paulo he went to the Presbyterian Church on the Alfândega Street, in the section of the city called Braz, where some of its members were Italian. Francescon says that some were Methodists, some were Roman Catholics and some were Presbyterians. Out of a Congregation of 70 people, 20 were converted and left that church”[11] (Yuasa 2001: 190).

O depoimento a Yuasa foi feito por João Finotti[12] no ano de 1960. Na ocasião, o mais antigo dos Anciãos ainda em vida: “João Finotti was a living link, and witness of Louis Francescon’s first visit to Brazil in 1910” (Yuasa, 2001 pg.191)[13].

A partir deste contingente de 20 “novos convertidos” da Igreja Presbiteriana da Rua da Alfândega, iniciou-se em São Paulo a Congregação Cristã no Brasil sob a liderança de Louis Francescon. Ele permaneceu em São Paulo, nutrindo e ensinando este grupo até o mês de setembro de 1910, quando partiu para o Panamá. O fruto de seu trabalho no meio dos italianos de São Paulo prosperou. Segundo depoimentos de João Finotti, um ano depois já somavam três Anciãos e o trabalho começou a expandir, primeiro em Água Branca e depois na Vila Prudente. No ano de 1914, um novo grupo foi formado em São João da Boa Vista e, no ano de 1916, a primeira propriedade foi comprada na Rua Uruguaiana no bairro do Braz. A partir desses acontecimentos a Congregação não parou mais de se expandir, primeiro para o Rio de Janeiro, depois para Minas Gerais e para a Bahia.

A questão de autoridade espiritual ou liderança natural exercida por Louis Francescon foi notável. Sua humildade, de outro lado, foi um traço dos mais surpreendentes: “Nunca busquei o que é meu, porém só esforcei-me em achar-me aprovado do Senhor como Seu servo, e nada mais” (Francescon apud Yuasa, 2001: 204).


3. Congregação Cristã no decorrer do Século XX


Excelentes trabalhos acadêmicos sobre a Congregação Cristã surgiram durante o decorrer do século XX, dentre eles podemos citar o estudo de, Émile G. Léonard intitulado O Iluminismo num protestantismo de constituição recente, ainda nos anos 1950, onde as primeiras luzes acadêmicas são lançadas sobre a denominação. Outras tentativas de desvendar as práticas religiosas deste grupo foram realizadas nos anos posteriores, algumas com grande sucesso, como por exemplo a excelente tese de Doutoramento do Pastor Key Yuasa na Universidade de Genebra em 2001. O trabalho com o título, Louis Francescon: A Theological Biography 1866 – 1964, resgata a trajetória da principal personagem desta denominação até sua morte em 1964. Infelizmente o meio acadêmico ainda não contou com a publicação deste trabalho que se encontra em fase de tradução. Apesar disto, no entanto, estamos convencidos de que este grupo religioso ainda se apresenta como um dos mais férteis para serem estudados.

Todos os levantamentos realizados, seja através de pesquisas ou através de entrevistas e observações, nos dão conta de que a denominação conserva até os dias atuais as mesmas práticas instituídas em seu início. A respeito disso, pesquisadores com trabalhos mais recentes, já com o advento das Ciências da Religião, comentam:

“A Congregação Cristã é conhecida, no meio protestante, por conservar as mesmas características e as mesmas linhas doutrinárias (consideradas rígidas) estabelecidas na sua organização, no ano de 1910, e preservadas até os dias atuais. É difícil conceber que, em pleno século XXI, uma denominação religiosa preserve em suas celebrações a separação de homens de um lado do templo e mulheres de outro, onde o poder (liderança) é exercido exclusivamente por leigos do ***** masculino e onde os costumes e as doutrinas são transmitidos, fundamentalmente, pela tradição oral” (Bianco, 2007: 10).

Foerster, ao escrever sobre o poder e a política na Congregação Cristã no Brasil, reconhece:

“Ao contrário de outros grupos religiosos – e incluem-se aqui a Igreja Católica e as igrejas do protestantismo histórico –, a Congregação Cristã no Brasil (CCB) parece ter sofrido poucas mudanças diante do avanço da concorrência e do pluralismo religiosos. Como nos seus tempos primordiais, a CCB continua apostando na eficácia do culto e da propagação pelas redes sociais pessoais como únicos meios de dar continuidade à sua tradição religiosa. Enquanto quase todos os outros grupos estão se gospelizando em termos musicais, a CCB não modificou seu hinário nos últimos quarenta anos” (Foerster 2006: 121-138).

Assim, apesar de todas as evoluções e avanços ocorridos no século XX em todos os setores e, apesar de no meio religioso, a explosão das “igrejas midiáticas” ter alcançado índices nunca vistos, a Congregação Cristã não mudou. Não alterou suas práticas e muito menos sua “estratégia”, não acompanhou a “concorrência”. Não se deixou levar pela “onda do mundo” jargão costumeiro entre seus membros para definir o comportamento conservador frente aos avanços da humanidade e, principalmente da tecnologia. Outra análise importante que podemos atrelar à questão de avanços, acompanhamento da “concorrência”, “midiatização” etc. é no que diz respeito à música. A “gospelização” não atingiu a Congregação, aliás, é muito comum, pessoas que não estão ligadas com qualquer tipo de religião ou mesmo acostumadas com qualquer tipo de celebração, elogiar este momento no culto da Congregação Cristã. Seus músicos são competentes, muito bem formados, orgulho da “irmandade”. Seus instrumentos são dedicados exclusivamente ao “Senhor”, estão impedidos de exercer o talento da música em outras instâncias.

“Para integrar uma orquestra, o músico deve apresentar uma carta de recomendação do Ancião de sua Congregação, devendo seu instrumento também ser consagrado a Deus, e, em hipótese alguma, tocar outro tipo de música. Sem dúvida, o ministério da música na Congregação Cristã representa, não só um atrativo importante para a igreja e suas celebrações, como também representa um enorme mecanismo de integração e de socialização de seus membros”. (Bianco, 2007: 111).

Também é importante observar que, no que diz respeito aos movimentos ocorridos no decorrer do século XX, a Congregação passou incólume. O movimento de libertação feminina, por exemplo, é um dos que não podemos deixar de citar. Reconhecido como um dos movimentos mais revolucionários e que mais marcou modos e costumes no século, na Congregação Cristã parece não ter passado de um acontecimento a mais, sem significado. Vemos isso transcrito na observação de uma celebração:

“A separação rigorosa e declarada entre os *****s. As mulheres, todas com suas cabeças cobertas por véus brancas, sentadas de um lado do templo, enquanto os homens sentados de outro lado. Aqui se vê o cumprimento de instruções contidas nos resumos de convenções de 1936 e 1948 com relação ao uso do véu: “Sempre que a mulher orar ou profetizar deve estar com a cabeça coberta; é necessário estar atenta para em nenhum caso ofender a Palavra de Deus. Esta não se contradiz; a sabedoria do Senhor não nos deixou um estatuto imperfeito”. (Resumo da Convenção de 1948: 24).
No que diz respeito à liderança a Congregação também não mudou. Não forma pastores, não possui seminários, escolas ou cursos. Aos mais velhos, sobre os quais Deus revelou, cabe a liderança e são então designados Anciãos, a eles cabe a condução da Congregação, assessorados por Diáconos e Cooperadores.
Por todos os aspectos ressaltados acima e por inúmeros outros observados em suas celebrações, levam a concluir que a Congregação Cristã não mudou substancialmente durante todo o decorrer do século XX. Não apenas com respeito aos costumes, mas também com respeito à forma de cultuar, de apresentar-se ou de “competir” no “mercado religioso”, esse conservadorismo a tornou uma denominação que, apesar do número gigantesco de seguidores, passa praticamente despercebida diante dos olhos de observadores desatentos aos fenômenos religiosos.


4. Religião, Mídia e Mercado


O fenômeno do acelerado crescimento da religiosidade contemporânea que assistimos nos últimos tempos, notadamente nas últimas décadas do século XX, ao contrário do que se esperava, não foi acompanhado ou ancorado no poder dos conteúdos teológicos ou mesmo espirituais que vinham sendo pregados. Estes conteúdos incentivavam fiéis ao aprendizado, à solidificação de princípios doutrinários, à morte em todas as suas nuanças e, principalmente, enfatizava a vida por vir, ou seja, a vida eterna. O que observamos hoje com este crescimento acelerado da religiosidade e o advento da pós-modernidade é que os conteúdos foram adaptados por muitas denominações a uma lógica mercantil que se distanciou do sagrado, associando salvação e consumo.

“Desde que a religião perdeu para o conhecimento laico-científico a prerrogativa de explicar e justificar a vida nos seus mais variados aspectos, ela passou a interessar apenas em razão do seu proveito individual. Como a sociedade e a nação não precisam dela para nada essencial ao seu funcionamento, e a ela recorrem apenas festivamente, a religião foi passando pouco a pouco para o território do indivíduo. E desta para a do consumo, onde se vê agora obrigada a seguir as regras do mercado” (Pierucci & Pandi, 1996: 260).

O pluralismo religioso e a variedade dos concorrentes no mercado criam um ambiente propício, e ao mesmo tempo, necessário para o aparecimento das técnicas de marketing, visando conquistar e manter os fiéis, ampliando a diversificação de produtos e serviços religiosos com o firme propósito de atender a demanda do mercado religioso. Estudiosos começam a comparar esta nova forma de relacionamento, com o procedimento dos consumidores em um verdadeiro supermercado. Neste “supermercado da fé” as pessoas podem avaliar as qualidades, as vantagens e os benefícios de cada denominação, em seguida adquirir uma ou mais de uma, das que estão disponíveis nesta “prateleira de ofertas”. “O consumidor religioso escolhe uma e até mais de uma experiência mística, ou solução espiritual, ou serviço religioso dentre uma grande variedade de propostas provocantemente expostas no ‘supermercado espiritual’” (Pierucci, 1997: 112).

O que podemos inferir neste novo cenário é que as religiões perderam força como instituição e passaram a ter que responder às necessidades e aos desejos imediatos das pessoas, exatamente como na economia de mercado. Berger (1985) referiu-se a isso da seguinte maneira:

“A situação pluralista é, acima de tudo, uma situação de mercado. Nela, as instituições religiosas tornam-se agências de mercado e as tradições religiosas tornam-se bens de consumo. E, de qualquer forma, grande parte da atividade religiosa nessa situação vem a ser dominada pela lógica da economia de mercado” (Berger, 1985: 149).

De modo geral as formas religiosas destes novos tempos passaram a adotar ferramentas de marketing, de propaganda e de promoção de eventos, até então identificada apenas no mercado de bens de consumo convencionais. Apresentar através da mídia (rádio, televisão e grandes eventos), seu leque de ofertas passou a ser uma questão de sobrevivência para essas instituições. Seus discursos são dirigidos não mais para aspectos doutrinários, conteúdos densos ou à vida eterna. Nesta nova realidade de mercado (capitalista) tempo é dinheiro, as ofertas precisam ser objetivas, as soluções rápidas. Seus discursos se direcionam a aspectos que afligem as pessoas: problemas familiares (brigas entre pais e filhos, casamento em crise, adultério, solidão etc.), de saúde (depressão, drogas etc.) e sobrevivência material (dinheiro, emprego etc.) (Mariz, 2001: 39).

Foi a partir da década de 1940 que surgiu no Brasil os primeiros programas evangélicos no rádio, a denominação pioneira foi a Igreja Adventista do Sétimo Dia, a primeira a alcançar o rádio a nível nacional. Algumas igrejas pentecostais iniciaram, na mesma década e também pelo rádio, sua inserção na mídia, dentre elas a Assembléia de Deus, a Igreja do Evangelho Quadrangular, O Brasil para Cristo e a Igreja Deus é Amor. No início os programas eram baseados nos modelos norte-americanos e anos mais tarde passaram a ser idealizados e desenvolvidos por brasileiros.

Em fins da década de 1950 o missionário canadense Robert McAlister iniciou um programa de rádio no Rio de Janeiro denominado A Voz da Nova Vida, posteriormente, em 1960, o nome do programa daria origem à Igreja de Nova Vida. McAlister, já no comando da Igreja de Nova Vida, seria o primeiro pentecostal a ingressar também na televisão. Os programas evangélicos televisivos, contudo, teriam sido iniciados também na mesma década de 1950 e os precursores foram novamente os Adventistas do Sétimo Dia, primeiro em São Paulo e mais tarde no Rio de Janeiro.

Os anos 1970 foram marcados pela invasão dos tele-evangelistas norte-americanos. Independente de denominações, inúmeros programas disputaram espaços na televisão brasileira. Esses evangelistas se apoiavam em seus carismas pessoais[14] e o conteúdo era de tendência teológica e ideológica das mais variadas. Programas como Alguém Ama Você do tele-evangelista Rex Hambard, Clube 700 de Pat Robertson e os programas do Pastor Jimmy Swaggart, alcançavam todo o território nacional. A repercussão entre os brasileiros, no entanto, não chegou nem perto daquela alcançada pela Igreja Eletrônica[15] americana no mesmo período. Alguns estudiosos atribuem o sucesso comedido deste empreendimento entre nós, ao fato de a produção destes programas serem baseadas na cultura americana, com perspectiva de vida completamente diferente da realidade dos brasileiros. Esses programas duraram até meados da década de 1980, quando a produção de televisão nacional cresceu, melhorou em qualidade e se tornou independente da produção americana.

Até o ano de 1989, várias denominações nacionais ainda detinham concessões de rádio quando, surpreendentemente, a Igreja Universal do Reino de Deus adquiriu a Rede Record de Televisão tornando-se a primeira denominação evangélica a ser proprietária de uma rede de televisão com cobertura nacional. Assim, seguindo a mesma trilha, no decorrer dos anos 1990, outros pregadores pentecostais se tornaram donos de seus próprios negócios. Em 2005 a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) já contabilizava em seu patrimônio dezenas de emissoras de rádio e de televisão, gravadoras de CD, sem contar a sua participação na produção de mídia escrita e na rede mundial de computadores (WEB)[16].

Alguns fatores contribuíram para o estreitamento da relação entre evangélicos e mídia nos últimos quarenta anos. Em primeiro lugar e, talvez o mais importante dos fatores, é que em vinte anos a televisão se tornou o maior veículo de comunicação de massa do país; em segundo lugar, na década de 1970 os programas importados foram substituídos por programas nacionais em horário nobre; em terceiro lugar, a televisão brasileira já nasceu aberta ao mercado; em quarto lugar, o aumento significativo do número de evangélicos na população brasileira justificou uma mídia especializada e voltada para este grupo; e, finalmente, o fim do regime militar teria gerado entre nós, uma abertura cultural-religiosa até então inexistente, o que abriu espaço para a entrada dos evangélicos.

É importante ressaltar, contudo, como afirma o sociólogo Paul Freston, que o rádio domina a mídia evangélica ainda hoje e a justificativa para esse domínio radiofônico é evidente e de fácil compreensão, em primeiro lugar o custo do rádio é bastante acessível quando comparado com o custo da televisão, em segundo lugar a produção técnica de um programa de rádio é muito mais simples e, por último, a disponibilidade de horários no meio radiofônico é muito maior que na televisão.


5. Visibilidade


Sem dúvida nenhuma, ainda é através do rádio que os evangélicos se inserem na comunicação de massa do Brasil, mas com certeza, a televisão é que dá maior visibilidade a qualquer produto, oferta e a qualquer grupo religioso nesta nova realidade. Inúmeros e excelentes pregadores (católicos e protestantes) constituíram e constituem o cenário religioso brasileiro durante os últimos cem anos, contudo, os que alcançaram notoriedade, fama e visibilidade foram aqueles que partiram para a mídia de massa e principalmente a televisão:

“Hoje, o programa “Show da Fé”, apresentado diariamente em horário nobre pela Rede Bandeirantes de Televisão, projetou no cenário midiático a força do segmento religioso evangélico, que, conforme analisa A. Klein (2004), cresce a cada dia. Este crescimento espantoso representa, atualmente, cerca de 10% da programação televisiva brasileira, o que trouxe visibilidade à denominação responsável pela produção do programa, a Igreja Internacional da Graça, e também ao seu pastor-líder que se autointitula Missionário R.R. Soares, abreviação de Romildo Ribeiro Soares[17].

Semelhante modo, denominações históricas como a Igreja Presbiteriana do Brasil, Igreja Presbiteriana Independente, Igreja Congregacional, Igreja Batista, Igreja Metodista, Igreja O Brasil para Cristo, Igreja Deus é Amor, Igreja Assembléia de Deus, Igreja Congregação Cristã no Brasil etc., permaneceram e muitas ainda permanecem invisíveis do grande público. Não se consegue identificar lideranças carismáticas que chamem a atenção, a exceção daquelas que, nos últimos anos tomaram a decisão de fazer parte da grande concorrência e se lançaram na mídia, como é o caso da Assembléia de Deus e da Igreja Batista[18]. Há que se ressaltar, contudo, que na sua maioria trata-se de investidas de lideranças específicas que, apesar de estarem ligadas a uma denominação não fazem divulgação delas, seus programas limitam-se a promover e a divulgar a si próprios, seus livros, seus CD’s, DVD’s etc. Os programas são exibidos em horários comerciais e com produção próprios, alguns são auto-sustentáveis e outros são suportados por contribuições dos próprios telespectadores.

Igrejas históricas como Congregacional e Presbiteriana com mais de 150 anos de organização no país ou mesmo as Pentecostais tradicionais como Assembléia de Deus e Congregação Cristã no Brasil que se aproximam do centenário, permanecem despercebidas da grande massa, algumas completamente invisíveis. Coincidentemente ou não, a participação dessas igrejas no mercado midiático é praticamente inexistente. Não estiveram absolutamente interessadas em lutar por conquistar espaço neste concorrido mercado. Se considerarmos que Peter Berger está certo quando diz que a religião passa por uma crise de estruturas de plausibilidade, ou seja, com o fim da metafísica, da escatologia a religião não consegue mais explicar a realidade. O pluralismo torna-se uma situação objetiva onde todas as instituições podem explicar e fundamentar a realidade, a adesão a uma religião passa então a ser voluntária, depende da escolha do indivíduo. Portanto, para conseguir a adesão de fiéis-clientes, a religião tem agora que usar da lógica da economia de mercado, as tradições religiosas têm que disputar espaço e clientes com seus rivais socialmente poderosos e legalmente tolerados (Berges, 1985: 149).

Ao contrário das igrejas eletrônicas, midiáticas, essas igrejas apesar de centenárias, não param de perder fiéis. O crescimento passou a ser vegetativo, tirando o sono de suas lideranças preocupadas com o futuro. É verdade que a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã no Brasil, ainda ostentam o primeiro e segundo lugar em número de fiéis (Censo 2000) no protestantismo brasileiro, contudo, igrejas (midiáticas) como a Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça e mais recentemente Igreja Internacional do Poder de Deus, com bem menos tempo de organização e sem fundamentação teológica profunda, crescem de forma assustadora e, em termos de visibilidade, ocupam a mente dos consumidores.

Se, algumas das denominações citadas, estão cedendo e buscando alternativas para não cair no ostracismo, a Congregação Cristã no Brasil, objeto de nossa análise neste artigo, se recusa a tomar qualquer direção neste quesito e parece seguir na contramão. Fortemente fundamentada na tradição oral e na estrutura social “gerontocrata” é legitimada pela tradição, seus membros não obedecem nem ao carisma de um líder, nem a uma estrutura burocrática, mas à tradição e à ordem, da qual o ancião é apenas o guardião e representante. Isso legitima a autoridade do ancião, uma vez que não existe tradição por escrito, mas somente tradição oral onde os contadores de história, se tornam membros cruciais da comunidade de tipo tribal. A estratégia de propagar-se por redes sociais já existentes garante homogeneidade ao grupo e por outro lado, constantes visitas entre seus membros e reuniões nas casas criam profunda interdependência pessoal, controlando seus comportamentos. Só a convivência e o contato prolongado com a instituição permitem adentrar sua estrutura e conhecer com profundidade suas minúcias.


Conclusão


Por opção ou por insegurança em expor sua doutrina, por estratégia de sua liderança ou por um “fundamentalismo” internamente elaborado, a Congregação Cristã no Brasil manteve-se durante todo o século XX quase que totalmente fora das discussões sobre religiosidade no Brasil. Em detrimento disso, conquistou a marca de se constituir como a segunda maior denominação pentecostal do país. O grupo manteve os mesmos padrões doutrinários do início, seus costumes mudaram muito pouco desde seu estabelecimento, apesar de o século XX ter se constituído como o século da mudança de comportamento em todas as instâncias. “Como nos seus tempos primordiais, a CCB continua apostando na eficácia do culto e da propagação pelas redes sociais pessoais como únicos meios de dar continuidade à sua tradição religiosa” (Foerster, 2006: 122).

As últimas décadas do século XX foi marcada pelo domínio do neo-pentecostalismo[19] extremamente midiático e ancorado por um consumo religioso exacerbado, fundamentado pela “teologia da prosperidade”, também de origem norte-americana e que tem se adaptado de forma natural ao espírito do brasileiro. Por sua vez, as demais denominações pertencentes ao pentecostalismo brasileiro[20], também estão procurando, mesmo que de forma tímida, seu espaço neste mercado extremamente competitivo. A CCB, contudo, mesmo com toda essa “pressão mercadológica”, não tem alterado sua postura conservadora. Ao contrário, continua sem qualquer exposição e invisível aos olhos dos menos observadores. A evangelização através do testemunho nas redes sociais pessoais têm se constituído como única forma de marketing da CCB. Tal qual nos dias primordiais, ela continua sem reunir multidões nas praças para convertê-las, não faz uso de panfletos ou qualquer outro material de propaganda escrito e muito menos dos meios eletrônicos e meios de comunicação (rádio, TV, internet).

É importante lembrar que até a Igreja pentecostal Deus é Amor, talvez o sistema religioso pentecostal mais rigoroso ao lado da CCB, em termos de exigências comportamentais, já tem seu site na internet, além de inúmeros programas na rádio. A CCB, porém, dá a impressão de uma tradição imutável e nos faz questionar sobre as possibilidades e as chances de sobrevivência de um grupo que se pretende imutável, insistindo em uma cadeia de memória oral no meio de uma sociedade que já não é mais uma sociedade de memória. O professor Leonildo, ao escrever sobre este assunto, alerta para as reações já observadas em seu seio:

“Porém, há uma igreja pentecostal ainda hoje resistente a qualquer tipo de comunicação que não seja do tipo pessoa-a-pessoa: a Congregação Cristã no Brasil. Essa igreja, a segunda denominação pentecostal brasileira, jamais publicou livros, revistas, jornais ou divulgou suas práticas e princípios religiosos em espaço público fora de seus templos e muito menos na mídia. Tem se observado, no entanto, o surgimento, dentro dela ou a partir dela, de dissidentes quanto aos métodos tradicionalmente usados pela direção da CCB para a própria expansão. Há, inclusive, sites na Internet para divulgar endereço de templos, fotografias, letras e música de hinos, arquivos que mediante pagamento de taxas podem ser baixados”[21].

Apesar das questões aqui levantadas sobre a CCB e de sua “invisibilidade” sugerida neste artigo, resta-nos manter os olhos e ouvidos de pesquisadores atentos para confrontarmos a realidade desta denominação e constatarmos se Mendonça avaliou corretamente ao sugerir que a CCB irá ocupar provavelmente no futuro, um nicho bastante relevante no campo religioso brasileiro, formado possivelmente, por aqueles “crentes iludidos” que acabaram por concluir que as religiões históricas se tornaram estéreis demais, que os demais grupos pentecostais optaram por ser barulhentos demais e agora procuram um retorno a um ponto intermediário.

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* "Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Teologia e Ciências da Religião".

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